Quinta-feira, 16 de Julho de 2009

HÄXAN - Witchcraft Through The Ages (Vídeo)

Um vídeo muito bom e interessante.
Produzido na década de 20 do século passado na Suécia, em determinada parte ele mostra perfeitamente toda a alegoria do que é verdadeiramente o Sabbat das Bruxas.

Vale a pena assistir!!!

(O Filmes está completo, dividido em 10 partes)










Terça-feira, 7 de Julho de 2009

O Diabo Cor de Rosa

Mais um ótimo ensaio, desta vez de autoria da minha querida sister Qelimath.

Boa Leitura!!!

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O Diabo Cor de Rosa


Em resposta aos sentimentos de aversão em relação à figura folclórica e arquetípica da Bruxa, houve uma subseqüente e colossal campanha de ‘branqueamento’ anexada ao ressurgimento de sua sobrevivência. Este ressurgimento ocorreu, em sua forma mais pública e popular, em uma forma de culto menos ‘nociva’ à moral cristã que permeia os costumes e usos da nossa sociedade.

Diante disto, é conveniente fazermos um balanço, uma análise do custo desta grande abertura de mercado diante das formas mais tradicionais do Ofício, mais habituadas a se manterem pequenas e secretas e menos preocupadas com a opinião pública e moral vigente.

Não é exagero usar o termo comercial para a análise, visto que o mercado editorial, o de cursos, o de acessórios e até mesmo o turístico têm encontrado resultados satisfatórios neste filão, impulsionados por grandes velas sopradas por Hollywood.

Mas voltemos à intenção, que é verificar o impacto daquela imagem anterior da bruxa, e compreender a identidade paradoxal do bruxo moderno, em especial no Brasil.

Tomemos o contexto do imaginário da bruxa inserido dentro do folclore, que em seus contos de fadas, mitos, celebrações e superstições preservam um vasto campo de pesquisa cultural, desde o conhecimento botânico às crenças e visões de nossos antepassados em relação ao mundo. Isto deveria ser o suficiente para leva-se mais seriamente os rumos dos estudos folclóricos no Brasil, e secundariamente, em sua extensão internacional, graças às trocas culturais - sejam elas através de linhas de consangüinidade ou simplesmente através do apelo espiritual a determinados elementos culturais.

Mas não é isto o que acontece.

Na contramão do que ocorre na Europa, que tenta reunir o máximo de dados culturais para recompor e recontar sua história, o brasileiro, descendente natural bem mais jovem, não demonstra esta preocupação. Esta gente brasileira, cuja população jovem reinava há uns dez anos atrás, deva começar a se preocupar em preservar sua cultura multifacetada antes que ela se perca na poeira do tempo.

O bruxo brasileiro hoje conecta-se com o mundo através da internet, e não raro pesquisa os materiais relativos aos cultos bruxos em websites. É ali que ele demonstra o sentimento que marcou o Brasil colonial, de exilado que anseia a volta à ‘civilização’. Na contramão, a arte das benzedeiras e curandeiros perdidos nos rincões deste país enorme, que trazem não só as características principais das artes bruxas, mas também, uma história rica de encantamentos e que podem ser traçados de volta para diversos países europeus, é prontamente desprezada na velocidade de um clique.

Este bruxo é fascinado pelos antigos cultos de ‘fertilidade e caça’, embora sempre se refira somente ao primeiro esquecendo-se que este segundo ponto justifica a verdadeira presença do Chifrudo. Tendo em mente que o culto também se baseia na ‘caça’, é no mínimo interessante verificar o verdadeiro horror quando diante do fato que ainda existam bruxos que praticam os velhos sacrifícios animais em honra aos deuses, prévio ao consumo no ‘banquete’. Une-se em coro as opiniões de todo o resto da sociedade ao louvor de um estilo de vida cada vez mais artificial e superficial. Aprende então a louvar a Morte em sacos plásticos, em peças de carne desinfetadas e bem cortadas, sem pelos ou penas, e a louvar a Vida desde que esta lhe dê suporte às suas indulgências e acesso ao último modelo de celular (pois sem ele a vida não valeria a pena!).

Compensa sua culpa da compra daquele cristal obtido à custa da floresta e montanha derrubada pelas mineradoras com campanhas ambientais, mais precisamente de doação de animais – domésticos lógico.

Defende o modelo de que o bruxo tem que ser sábio, ainda que incorra no erro do sincretismo e ecletismo irresponsável. Cultua Lilith e Hécate como se estas fossem “mães-modelo”. De um lado teme o mal e a tentação de fazer o mal, de outro, ri do perigo dizendo driblar a tal ‘lei tríplice’.

Faz invocações as quatro “torres de observação”, aos quatro
“guardiães”, enquanto nega que estes são chamados entre outras gentes de ‘”anjos” ou “demônios”. Mas, como estes últimos são tidos como “coisas judaico-cristãs” sem maior análise e aprofundamento, fica em paz em suas pequenas ilusões.

Enfim, criou o novo modelo regulador de moral e dogma, pouco mais adaptado ao caráter flexível das pessoas modernas, uma Jeová de Saias para servir de contraponto ao já existente dentro da arque inimiga Igreja – hoje, uma Nêmesis involuntária.

Estes bruxos moderninhos, só eles, diz-se, podem se chamar ‘bruxos’. Os que não se encaixam nesta nova ordem, devem ser eliminados na “inquisição interna”, onde reputações fazem as vezes de corpos queimados ou pendurados pelo pescoço.

O Cornudo, pobre esquecido, o grande homem-bode de falo ereto e cheiro almiscarado, desce do pedestal de Diabo do Sabbath, vermelho como o sangue dos marginais heréticos, azulando-se de horror aos representantes gays no tal chamado ‘culto de fertilidade’. Ele finalmente chega aos nossos dias ganhando tons rosados – de tanto branqueamento - pela nova geração de ‘jovens bruxas’.

Estas ainda estão muito preocupadas com o que seus pais, irmãos e amigos, enfim, o que a sociedade pensa sobre seu estilo de vida, seja ele pela escolha de fazer parte de um grupo ou por pura rebeldia - pela falsa liberdade de estar em oposição a algo, uma perda de tempo a qualquer peregrino.

Qelimath

Terça-feira, 30 de Junho de 2009

O Caminho Envenenado

Por Daniel A. Schulke

A hoste retorcida de verme e serpente; os venenos de aranha, escorpião, e sapo; e as sementes e néctares corruptos de ervas de maldição todas incluem a farmacopéia mítica da bruxa. Tais são os componentes do Caldeirão em seu disfarce sinistro, que, junto com o fogo do forno ele mesmo, ferve bem no meio do Círculo do Sabbat. Ao longo do tempo, distorções mundanas deste vaso assumiram o grotesco da fantasia momentânea. Na injúria do inquisidor religioso, ele é a panela de guisado para extrair gordura humana e reduzir, por cerimônia depravada, toda maldição da Terra para um potente caldo do inferno. Pela lente ocluída do arquétipo, é transformado em um intelectualmente saboroso 'caldeirão de transformação' ou útero do mistério feminino. Ainda para a bruxa, cujo comércio com a hoste retorcida está destinada pela feitiçaria a contato com espírito, é, e sempre tem sido, a Fonte Negra de Execração, fonte de Veneficium, a magia dos venenos.

Veneno, como bruxa, é uma palavra carregada com associações problemáticas. Na linguagem vulgar ela veio para indicar um agente de destruição, seja ela do espírito, mente ou corpo, cujos inevitáveis legados são ferir e matar. Porém, definições antigas freqüentemente implicaram um veneno curativo, como também sua capacidade para causar dano. O termo latino veneficium pode ser interpretado como droga, veneno, ou magia; a antiga palavra grega pharmakon podia igualmente indicar um veneno ou uma cura[1]. Estas definições paradoxais de toxinas, em que poderes de ambos, destruição e cura, estão presentes, revelam uma certa sabedoria perdida na farmacologia mágica da Antigüidade, e estão alinhadas com a sabedoria popular da bruxa.

Para o feiticeiro, o veneno é o ingresso do poder externo iniciando crises. Os frutos de seu campo temporal são o produto não só da dosagem, mas também de fatores como rota de administração, força do vaso físico, pureza da Ação da Arte, e o favor dos espíritos presentes. Como com toda iniciação de crise, a colheita resultante pode ser criativa ou destrutiva; libertada ou repressiva, iluminada ou obscurecida. Como os Alquimistas bem conheceram, o veneno é o ponto de primeiros inícios do qual tudo deve surgir; ele é poder, ambos em seu estado cru, e em todo seu potencial para transmutação. Como Paracelso notou, ele é ambos, onipresente e ausente na Natureza.

Auto-Envenenamento para a obtenção de conhecimento místico e congresso com os espíritos, é o que nós chamamos de 'O Caminho do Veneno' [2]. Esta designação separa o empenho espiritual da Transmutação do dejeto comum de hedonismo ou atividade criminosa. Nossa, então, é uma Arte de discriminação sutil, de observação e atenção. A Gnose do Caminho do Veneno não surge da primeira matéria de sua toxina, nem seus efeitos somáticos mundanos, mas em sua Transmutação via a Arte Mágica para servir o Caminho do Buscador. Esta Arte é assim o domínio santo de Shiva Vishpan, ou Shiva o Bebedor de Veneno, absorvendo venenos de uma concha, cuja cor de pele azul resultou de sua ingestão [3]. No saber islâmico, é o domínio do uphir, ou Médico do Inferno, possuindo o secreto saber dos medicamentos e corpos mortos; similar ao Búlgaro vapir ou vampiro e o Turco upir ou 'feiticeiro'.

Algumas formas de Bruxaria Tradicional consideram o Fruto da Árvore do Éden como a dispensação de Samael, ou Lúcifer, para o gênero mortal. Como um assim chamado 'Anjo Caído', esta inteligência é deste modo o arauto do Amanhecer do Domínio Bruxo, o emissário da luz para transgredir as primeiras trevas "tu não deves comer". Diversas cosmogonias antigas também narram seres transmissores angelicais como portadores do poder proibido; muitos podem ser considerados deuses do veneno. Em pelo menos um antigo texto pseudoepígrafo, Eva relaciona que o Fruto da Árvore estava borrifado com o veneno da Serpente, que ela então comeu depois de dar um juramento para o anjo [4]. Aqui é encontrada a Arte do Envenenamento em seu aparecimento espiritual, contida com outras ações primevas de bruxaria: congresso entre anjo e humano, transgressão contra o demiurgo, autolibertação, e a assunção de Nova Carne. O comércio entre a Serpente e Eva assim inaugura um padrão do processo iniciático que continua ao longo do tempo mágico. Que estes seres eram machos, e seus primeiros humanos iniciados mulheres, invoca certo arcano de feitiçaria sexual.

Uma característica essencial da Bruxaria Tradicional é a vida rural e seu corpo aliado de tradição, saber, e costume. Ela deste modo serve como um repositório dos ensinos práticos da fazenda e zona rural, verdadeira para sua fonte, apesar de séculos de contato com influências urbanas. Esta peculiaridade não está ossificada - ela é viva e ativamente empenhada por aqueles cujos ofícios são formados pela terra e suas leis. Parte deste celeiro de conhecimento concerne a imediação da morte na vida cotidiana, se ela é a matança do gado, a caçada, a destruição de animais daninhos, ou a ameaça da morte humana de causas variadas. O conhecimento rural prontamente aceitou este aspecto de seu mundo; do armazém de sabedoria rural vem para nosso grande legado os nomes de planta comuns, muitas das quais carregam as advertências de suas naturezas venenosas. Por exemplo, o sufixo "bane" [NT: veneno, ruína] aparece nos nomes comuns de venenos botânicos numerosos como Cowbane (Cicuta spp.), Wolfsbane (Aconitum spp.), Dogbane (Apocynum spp.) Henbane (Hyoscyamus spp.), e Baneberry (Actaea spp.).

O uso ritual especializado do Heléboro, Amanita muscaria, como também de várias plantas tóxicas da família dos Nightshade, tem estado presente em vários círculos fechados da Arte Tradicional que eu pertenço[5], onde a custódia destas Artes é mantida segura como um cargo dentro do covine, a pessoa que permanece neste posto pode carregar alguns nomes como Verdelet, Hayward [NT: hege-weard – Guardião da Cerca], ou Homem-Verde. Mais freqüentemente, contudo, a especialização em sabedoria das ervas é mantida entre muitos membros do círculo, de acordo com interesse, treinamento, necessidade e proclividade. Além do conhecimento prático, alguns destes ensinos são místicos ou poéticos, ou sobrevivem como simples encantos, sugestivo de um contexto histórico antigo em que o conhecimento de venenos e contra-venenos era prevalecente. Porém também presente ao lado de tais ensinos tradicionais estão certas advertências. A chefe destas é que o uso de plantas visionárias não é em nenhum sábio um substituto para uma sóbria e rigorosamente enfocada prática mágica, e que a verdade do congresso do espírito pode facilmente ser contaminada por muito veneno considerado tão sagrado. Deste modo, dentro do Círculo de Arte, o Veneno Mágico é somente uma cor na palheta do Artista Divino [5].

Isto não é, porém, rejeitar o potencial mágico para o sacramento visionário, pois tal existe em rituais tradicionais desde o amanhecer de feitiçaria. Um exemplo de relevância particular para magia européia, e Bruxaria Sabbática em particular, foi documentada pelo pesquisador do século dezenove Julius Klaproth. Estes eram os ritos do Ossetianos do Cáucaso Setentrional, primeiros descendentes modernos dos antigos Scythianos. Dominante em sua iconografia religiosa era o Profeta Elias, por quem cabras eram sacrificadas em cavernas para uma colheita abundante e para evitar o granizo. Eles praticaram um rito em que folhas e galhos de Neve Rosa (Rhododendron caucasicum) eram queimados lentamente em cavernas sagradas. A fumaça resultante da planta puxava os videntes para dentro de um sono abundante com sonhos de ricos presságios [6]. Outra área da investigação relevante para a Arte é o denominado Ungüento Voador das Bruxas da lenda, um ungüento que, apesar do mistério que o cerca, tem vários precedentes etno-botânicos. Por exemplo, os sacerdotes astecas do deus Tezcatlipoca ("Espelho da Fumaça") compuseram um ungüento chamado Teotlacualli contendo quantias cheias de tabaco, cinzas de insetos e aranhas venenosas, lagartas, salamandras, víboras e fuligem. Nisto eram adicionadas Sementes esmagadas de Ololiolique, (Rivea corymbosa), uma planta da família da Morning Glory. De acordo com os escritos do prelado espanhol Acosta, os sacerdotes assim ungidos “... tornavam-se cruéis em espírito. De noite eles iam sozinhos dentro de cavernas obscuras e ostentavam que bestas silvestres e selvagens temiam eles por causa da força de sua mistura”.

O Veneno Sagrado pode servir como visionário, mas ele pode também dar angústia física como catálise mágica. A erva de beira de estrada Urtiga não é comumente pensada como sendo veneno, mas aqueles cuja carne nua foram irritados pelos cortes de suas picadas alguma vez conhecem uma medida de sua ferocidade. A prática ritual antiga de urticação, por meio da qual devotos ascéticos do culto Cristão mortificavam sua carne com urtigas, provavelmente tem antecedentes feiticeiros muito mais antigos; O choque de histamina para a carne e endorfina correspondentes libertados, em um contexto ritual enfocado, pode precipitar transe extático. Inflição cerimonial de dor - neste caso irritação feroz - encontra corolários em vários ritos importantes, como o Pe'a, os rituais de tatuação dos homens de Samoa, que, entre outros propósitos, criam um simulacrum simpático das dores do parto. Os venenos irritantes como uma fonte de poder também são reconhecidos entre as tribos dos Kawaiisu da Califórnia, que estimam formigas vermelhas como uma Medicina Santa[7].

Separadamente do uso do Veneno Sagrado no corpo, o veneno pode se manifestar como um sinal ou presságio. As picadas de flora ou fauna venenosas podem servir como o daimon convocador ou patrono da Bruxa, anunciando o desvelar de bênção ou maldição, ou a indicação do veneno como uma fonte do poder dela. Como o cortejo bestial que toma conta das crianças sombrias da serpente, uma enfermidade horripilante pode também muito servir como a ordália tóxica, e em alguns casos traz sonhos ou visões. Certos outros sinais, enquanto não venenosos no sentido químico, podem ainda emanar influências ou contágio sujo, como o Evil Eye [NT: Olho do Mal, o mesmo que Mau Olhado]. Uma extrapolação disto foi a convicção medieval que o olhar da mulher menstruada podia entorpecer espelhos, que ocasionou associação com o basilisco; a transmissão do humor venenoso da mulher menstruada foi assim passado para o insuspeito via o olho[8]. Objetos ou lugares podem também ser excepcionalmente considerados maléficos, e assim associados com veneno; um exemplo é o 19° Escorpião, conhecido na astrologia árabe como o "Grau Amaldiçoado" e identificado com a estrela Serpentis. Em todos os casos onde o contato é feito com tais forças, é a Transmutação bem sucedida do veneno pelo feiticeiro que determina seu potencial para a gnosis, liberando deste modo seu poder verdadeiro.

O Caminho do Veneno ecoa o ethos dual de cura e maldição encontrado como um fio de muitas formas da Bruxaria Tradicional. Isto é ecoado nos domínios de certas deidades. Como as palavras antigas usadas para venenos, certos deuses do veneno também comandam a cura, como com Gula, Deusa Sumeriana da cura e fertilidade, também ligada com venenos e feitiçaria. Omolu, o médico da pestilência do Fon Vodou, exerce o poder do contágio e virulência, mas ele é Aquele que é suplicado pelo fiel para libertação da doença. Esta dualidade pode se estender para plantas venenosas elas mesmas: a Mandrágora, por exemplo, é uma planta com uma bem documentada e antiga ligação com a feitiçaria. Bem como seu lugar nos encantamentos, suas virtudes de droga longamente foram conhecidas, incluindo alegria, sedação, anestesia, e veneno letal. Estas características, como também sua utilização em diversos tipos de magia, levou a sua associação com o Diabo. Todavia, a diablerie da Raiz-Homem não obstante, também era co-identificada com Cristo no início de teologia Cristã [9].

Quando jovem, parte de meu treinamento espiritual foi no denominado curandeirismo ou magia popular mexicana do Sul dos Estados Unidos, um sincretismo de feitiçaria Americana nativa, catolicismo romano, e vestígios de magia européia, particularmente bruxaria espanhola e as tradições grimóricas. Ainda que o nome para esta Arte diretamente invocada Cura, seu corpo servente de saber e prática mágica coloca igual ênfase na denominada arte de feitiços da 'mão-esqueda'. Por tabu, os praticantes conhecidos por mim se referiam a si próprios não como brujos (bruxos), mas particularmente como curandeiros, ou às vezes charismos, e místicos. A este respeito, a auto-identificação do meu próprio professor era como um 'mago branco' cujo repertório feiticeiro incluía práticas para induzir morte, doença, tormento ou outro dano, bem como curas. Tais ritos de amaldiçoar eram 'magia defensiva, usados contra 'magos negros': naqueles que usaram eles não tiveram nenhuma compunção chamando ambos, o Cristo e o Diabo para ajuda.

Este particular ethos de bruxaria e feitiçaria foi chamado de 'A Via Tortuosa' por Andrew D. Chumbley, antigo Magister da Cultus Sabbati [10]. Entre seus muitos objetivos, busca reconciliar, através dos poderes do Opositor, as polaridades mágicas de ambas, a bênção e a maldição. Para o feiticeiro da Via Tortuosa, veneno é o poder de oposição propriamente, definido não por sua toxicidade mundana ou seu dano potencial para a carne, mas por sua capacidade para facilitar a Distinção - o luminoso domínio do Sabbat. É deste modo o Tridente Manifesto como arcos opostos do Caminho do Veneno: bálsamo, veneno e Caim como o transubstanciador entre ambos, o caminho mediador entre a Panacéia, a curadora de tudo e Pantrauma, a feridora de tudo. O Caminho Envenenado é deste modo a corrente manifesta contra a Natureza ela própria, o Opositor auto-assassino, e o Deus Exterior: todos devem ser girados para servir o Caminho do Iniciado. Este é o ethos presente na transmutação mágica do Veneno.

De igual preocupação às particularidades de toxinas terrestres é o Veneno Espiritual e sua hoste servente de poderes, que produzem opprobium de espírito. Como suas contrapartes materiais, sua entidade retém uma atratividade externa, mas em baixo de suas máscaras se retorce uma hoste infecciosa. O feiticeiro faria bem em considerar os três Venenos Budistas da cobiça (lobha), ódio (dosa) e ilusão (mola). Enquanto estes atributos são variavelmente considerados no mundo de homens, para o feiticeiro eles são as muitas chaves de falsidade, e impedimentos para o poder, e as sementes da própria derrota. O veneno espiritual é transmudado pelo feiticeiro através da Fórmula da Oposição, mas também por via do encanto curativo tradicional, e métodos mágicos para 'aterrar' o veneno dentro de um substrato fetichista. Um curioso exemplo disto é o "Cálice do Medo" (Tasat al-Tarba) da medicina popular Islâmica, uma tigela de metal gravada com orações para as divindades angelicais, e tendo suspensa, ao redor de sua borda, quarenta pequenas "chaves" de metal gravado com orações. O cálice é exposto ao ar da noite, e o orvalho assim coletado é bebido pelo afligido para a curar sintomas físicos tendo sido atingido por medo ou terror sobrenatural [11]. Porém, onde Venenos Espirituais estão concernidos, os mais importantes de tais venenos não são auto-administrados, mas dados dos Destinos: doença, coração partido, a morte de uma pessoa querida, um golpe de má sorte. Não é mera coincidência que a Atropa belladonna, Rainha Élfica dos venenos, é nomeada para a Senhora da Tesoura. Aqueles que tem verdadeiramente contemplaram seu espelho negro conhecem a ligação próxima entre revelação e sombreada finalidade.

Da perspectiva da Via Tortuosa, o conhecimento do Caminho do Veneno deve concernir ele mesmo igualmente com oposto do Veneno. Tal conhecimento usualmente engloba contra-venenos ou antídotos, o hypostasis mágico do qual é Bálsamo ou Néctar. Tradicionalmente isto tem sido o reino do Theriaco ou Mithridato, a antigo preparado contendo ambas, as toxinas e terapêuticas, usado como um "limitador" ou preventivo, contra veneno. Dioscorides fez uma confecção de carne da víbora chamado Sal Viperum, como um antídoto para venenos; a serpente era assada com figos, sal, mel e Nardo[12]. O Mithridato Oficial, contendo mais de 60 ingredientes, era composto e prescrito até o século XIX. Os princípios e preocupações do Mithridato e Contra-Veneno continuam presentemente na moderna Medicina Oficial na forma de inoculação e vacinação, poderes constantemente em jogo na Natureza ela própria.

O mistério do Veneno e Antídoto exigem que o Herbolário não olhe só no potencial curativo do venenos, mas também no potencial prejudicial daquelas ervas normalmente consideradas inócuas ou curativas, e todos os estados entre elas. A biologia nos diz que venenos surgiram como limites defensivos, mas também como armas ofensivas. Este conhecimento contém o recorrente Arcanum da Oposição que nós encontramos assim longe no Caminho do Veneno.

Doses progressivas de veneno são portais bem largos ao reino dos espíritos, o último do qual é a morte física. Nem todos os são aprazíveis, e muitos trazem grande dor[13]. Ainda dentro do âmbito da Arte Mágica nós podemos posicionar um esquema de Envenenamento Gnóstico, um continuum cujas polaridades são Benéfica e Maléfica, curar e causar doenças. O movimento ao longo do eixo em uma direção é progressivamente inócuo, no outro, progressivamente letal. Para alguns venenos, ali existe entre estes dois pontos um estado de Divina Loucura, o rapto do Êxtase em que o 'Eu' pessoal é transgredido e o tráfico feiticeiro com o mundo dos espíritos é facilitado. Este continuum é diferentemente expresso com cada planta ou veneno animal, e em cada encantamento que o utiliza. Estricnina, a qual é um estimulante em doses pequenas, se torna uma toxina fatal de nervos em doses altas.

Um exemplar talvez mais germano está com as Visionárias Nightshades, um grupo particular de plantas às vezes chamadas de 'The Hexing Herbs' [N.T: 'Ar Ervas Bruxas']. Estas são plantas de distribuição temperada e tropical com antigas histórias de uso mágico, e caracterizadas por visões demoníacas em doses xamânicas. Os irmãos mais importantes neste clã incluem Meimendro, Beladona, Thornapple, Mandrágora, Trompete do Anjo, e Tabaco, que, quando usado tradicionalmente, é alucinógeno. Entretanto cada uma destas plantas é quimicamente e magicamente diferente, todos elas correlatas para a similar Continua Gnóstica. Desde em baixas até altas doses, estes 'Portais de Veneno' de Nightshade são Hilariantes, Afrodisíacos, Inebriantes, Estupefacientes, Fantasmagóricos, Anestésicos, e Venenos Fatais. A Gnosis pode esperar atrás de cada portal, mas as portas podem também fechar num estrondo - oferecendo nada além de agonia e castigo!

Ainda, para aqueles que trilham o Caminho do Veneno, talvez o melhor Conhecimento de Antídotos não repousa em qualquer bálsamo encantado ou preparado químico, mas na balanceada e adequada Devoção ao Medo. Em sua exaltação, o Medo é o conhecimento e respeito simultâneos daqueles poderes que podem nos aniquilar. Seu eixo irracional, manifesto em ação, é covardia e impulso; seu florescer é coragem e prudência. Robert Cochrane acautelou que o uso do sacramento de veneno nas mãos do tolo era um 'caminho rápido para o submundo da insanidade', e este crânio e ossos-cruzados permanecem como uma marcação no Caminho Envenenado. Outros caminhos do espírito podem agüentar o tolo, mas não a Senhora Sombria dos Venenos, pois Clemência é uma virtude estranha as suas escuras gotas.

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Nota Biográfica: Daniel A. Schulke é o Magister da Cultus Sabbati, um círculo de iniciados de Bruxaria Tradicional na Inglaterra e América do Norte. Ele é o Autor de Ars Philtron (Xoanon Press 2001) e Viridarium Umbris (Xoanon Press 2005).

[1] Visco, ou Mistletoe, uma planta conhecida por seus poderes venenosos como também curativos, em última instância deriva das raízes de Proto Indo-européias antigas Weis 'dissolver longe, fluir '; Sânscrito Visam - veneno; Avestan Vish - veneno.

[2] Talvez a pesquisa moderna mais completa deste obscurecido pelo-modo é Dale Pendell, cujos volumes de Pharmako considera o envenenamento sagrado como uma das formas mais antigas da Arte Mágica, e Eva como sua Santa Patrona.

[3] Este matiz azul-celeste traz em mente certas conchas conícas da família dos Conidae, comuns nos mares do Pacífico Sul, que possuem uma probóscide como dardo capaz de injetar uma dolorosa e potencialmente letal neurotoxina. Um de seus sintomas de envenenamento em humanos é a cyanosis, ou coloração azulada da pele.

[4] Vida de Adão e Eva, 19:3

[5] O conhecimento de venenos rituais também está presente em outros grupos de bruxaria tradicional; Robert Cochrane, antigo Magister do Clã de Tubal Caim, possuía habilidade considerável nesta área. Para um exame de alguns aspectos deste, veja Semple, Gavin 'Um Cálice Envenenado ' na The Cauldron # 114 (novembro de 2004).

[6] Ginzburg, Carlos - Ecstasies, Deciphering the Witches' Sabbath pp. 162-3. O veneno visionário não é limitado ao pagão, como a manipulação de serpentes das seitas Pentecostais Cristãs na América do Norte rural revelam. A interação com serpentes venenosas vivas e bebendo estricnina, quando eles não resultarem em fatalidade, freqüentemente trazem êxtase e espírito contato espiritual com Yahweh ou Cristo.

[7] Zigmond, Maurice. Kawaiisu Ethnobotany and The Supernatural World of the Kawaiisu. Além de efeitos irritantes, as formigas vivas, bolas das quais eram tragadas em águia-abaixo, também eram um hipnótico e preservador contra espíritos do mal. Os Kawaiisu também praticavam caminhadas desnuda através de moitas de Urtiga para ganhar poder.

[8] Jacquart, Danielle and Thomasset, Claude. Sexuality and Medicine in the Middle Ages. Princeton University Press, 1988. pp. 74-75

[9] Rahner, Hugo. Greek Myths and Christian Mystery, p. 247

[10] Chumbley, Andrew D. Qutub (Xoanon 1995), e "The Crooked Path I and II", Chaos International, 1992.

[11] Abd al-Rahman lsmail Tibb-Al-Rukka (Old Wives' Medicine), ed. John Walker, MA (Folk Medicine in, Modem Egypt) Luzac & Co., 1934.

[12] Wheelwright, Edith Grey. Medicinal Plants and Their History, p. 81.

[13] O mito de uma 'morte pacífica' usando venenos naturais de plantas e animais encontra um pequeno corolário na realidade prática. Com a exceção notável do ópio, a maioria produz efeitos colaterais dolorosos e horríveis.

Tradução: Draku-Qayin

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OBS* Este ensaio foi publicado originalmente no Brasil na revista O Caldeirão, fazendo parte atualmente do acervo da Revista Crux. Reproduzido aqui com permissão.

Domingo, 7 de Junho de 2009

O Ninho do Dragão

Por Nicholaj de Mattos Frisvold


A Bruxaria Tradicional começa e termina, se enrola e desenrola no ninho dos dragões. Uma nova percepção começa ciclicamente assim que cada ponto é recuperado, compreendido e integrado. Ser um Bruxo não é assim tão simples, e não assim tão abrangente quanto se pode ter a impressão, quando se confunde Gardner e Sanders como bruxos no sentido tradicional da palavra.

Nos últimos anos uma confusão à respeito da Bruxaria tornou-se mais e mais proeminente dentre os buscadores, sobre a diversidade dos trajetos que conduzem a qualquer lugar e em nenhuma parte simultaneamente. Há uma escala de modalidades diferentes do que é chamada intercambiavelmente de "A Arte Antiga”, "A Arte do Sábio", "O Sábio Conhecimento do Povo", “O Conhecimento Folclórico", "A Nobre Arte" e demais termos na mesma veia em relação respeito à Wicca, Bruxaria Hereditária e Bruxaria Tradicional.

Alguns esclarecimentos devem ser feitos para distinguir estes caminhos entre eles somente porque são diferentes. Já é complicado explicar as diferenças em sua natureza, e, adicionando-se a grande confusão dos conceitos, sem dúvida tudo irá se conduzir a uma confusão maior do que uma compreensão maior, desde que nada está claro para aqueles que operam à base de suposições e não através da compreensão e do conhecimento.

A primeira distinção que deve ser feita é entre a Wicca e a Bruxaria Tradicional: Gerald Gardner - que fundou o movimento Wicca - declarou ter sido iniciado num Coven no interior da Inglaterra por um clã de Bruxas Tradicionais, entretanto, não há nenhuma evidência que tal ato tenha ocorrido. E mesmo o “corpus” de seu sistema, tanto quanto o seu “curriculum”, ou até mesmo suas “iniciações” não carregam nenhuma semente que demonstre ser uma linha autônoma de Bruxaria Tradicional, assim como é passada através de sua linhagem.

Isto tem mais um gosto de um trabalho intelectual atribuído ao que Gardner chamou de "A Fé Antiga", baseado em sua maior parte na pesquisa de Charles Godfrey Leland a respeito da Bruxaria Italiana, da Stregoneria e dos outros estudos folclóricos dos quais ele teve acesso.

A Wicca é baseada em polaridades, e os Wiccanos vêem o jogo da natureza na imagem do Deus e da Deusa, e a manifestação destas formas da natureza divina. Uma reverência à natureza por si própria, a nossa mãe terra é também central. Além disto, têm-se os Sabbaths e Esbaths, o que é completamente típico para o que conhecemos como Wiccan, contudo não habitual na "Roda do Ano" dentre os Bruxos Tradicionais necessariamente. "A Bíblia das Bruxas" (de Janet e Stewart Farrar) é, em minha opinião, a exposição a mais desobstruída e a mais autônoma sobre o que é de fato Wicca, o que ela contém, e qual é o alvo. Os Farrars são wiccans orgulhosos e mostram que não há nenhuma necessidade para reivindicar algo que eles não são, como foi a grande tendência geral nos últimos anos.

Acredito que esta tendência é baseada na confusão de conceitos, porque as pessoas gostam de se passar por mestres sem ter o conhecimento suficiente e o poder pessoal para sê-lo. Houve também uma tendência de se supor que há algum tipo de inimizade entre Wiccans e Bruxos Tradicionais. Certamente isto acontece em alguns casos, mas isto não é regra. Para tomar alguns exemplos: o grande sábio e feiticeiro A. O. Spare desrespeitou Gardner, assim, o melhor que ele (Gardner) fez, foi evitá-lo. Spare foi um Bruxo de verdade, aquele que viu o olho do dragão e foi guiado pelos Antigos Poderes por eles mesmos. Um outro exemplo, mais recente, é o de Robert Cochrane, o Magister do Clã de Tubal Caim, que considerava a Wicca sendo mais ou menos a “pestilência da sujeira”. Porém, hoje em dia, a Magistra do Clã também é Wiccan.

Vamos retornar à confusão, onde encontramos a palavra “Bruxa” na raiz da bagunça. "Witch" é uma referência ao conhecimento, o saber, e "Wytja" é carregar o testemunho do conhecimento. Também palavras como "Curren", que é um outro antigo nome usado para classificar a Bruxaria Tradicional, e refere-se ao entendimento e à sabedoria. A Bruxaria Tradicional pode ser encontrada provavelmente em toda parte no mundo, porém em maior parte na Europa a Bruxaria floresceu através da história, todas as vezes pelas palavras das bocas das Bruxas solitárias a seus aprendizes, ou a outros Povos Sábios e Pessoas Sábias. Para não deixar isto muito longo, podemos dizer que a Bruxaria Tradicional é uma linha iniciática de conhecimento e “empowerment” (passagem de poder) que tem sido passada através dos tempos, de iniciado para iniciado.

A diversidade e as diferenças dentre as diferentes vertentes do “Witchlore” (conhecimento de bruxo) são grandes e cada linha ou clã é único no que diz respeito ao conhecimento e às modalidades de “empowerment”. Toda a Bruxaria Tradicional começa com o encontro com os Antigos Poderes e desta reunião a tocha do “Witchfire” é dada pelos Antigos Poderes - por eles próprios - para o bruxo, isto irá resultar em uma orientação única e aqueles que são do Sangue-Bruxo verdadeiro são marcados e reconhecidos pelo primeiro Pai Primordial do Sangue-Bruxo e pelo encanto das almas das bruxas no abraço da “Witchmother”.

É um retorno profundo às recordações sobre o que repousa no sangue do bruxo e sobre andar passo a passo com os Antigos Poderes. A direção que eles lhe dão é como dita pelo Crooked Path (Via Tortuosa): “O Caminho Uno Direto é sempre único” (One Path Direct is always unique). É esta a razão das diferenças entre as várias linhas da Bruxaria Tradicional, e nestas diferenças elas contudo continuam iguais.

Como dito em alguns livros, a Bruxaria Tradicional é vista como algo difícil de se captar e se compreender, e é sim - porque ao se escrever de dentro do “Crooked Path” (Via Tortuosa) não se fala para muitos, mas para poucos. E após ser testado pela forja e a flama, a lâmina e o sopro, uma destruição da gramática e da língua é concebida, e somos deixados pobres de palavras, sem ter como descrever a experiência de ver o seu próprio destino sangrando na sua frente, o espelho rachado, aberto nas paisagens, e no cair em si, que traz o conhecimento esquecido para a batida do coração no AGORA.

A Bruxaria Tradicional como conhecemos no Crooked Path, é uma estrada, frequentemente solitária, que sempre dá ao peregrino todas as experimentações e as ordálias, e o constante auto-sacrifício é sempre uma necessidade, junto com uma humilde dedicação, com os olhos que tenham sido tocados pela visão do ninho do dragão, e acariciado pela cauda da víbora.

Na Wicca, dança-se ao redor das polaridades da natureza e atraem-na para baixo, na Bruxaria Tradicional, o alvo aponta para o UM e único – e esta é a grande diferença e o que faz a Wicca e a Bruxaria Tradicional um mundo separado e para sempre diferente.

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* Este ensaio foi publicado originalmente na revista O Caldeirão, e hoje faz parte do acervo da Revista Crux. Citado aqui com permissão.

* Imagem: Talismã de Saturno - arte de Nigel Jackson

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