quinta-feira, 30 de julho de 2009
Bruxaria Tradicional
sábado, 25 de julho de 2009
O Caminho e a Marca do Caminho - Considerações da Sabedoria do Exílio na Antiga Arte

Por Daniel A. Schulke
A Feitiçaria é uma estrada que dá forma formativa, tanto como caminho para carne como uma imanente trilha espiritual. O caminho do feiticeiro alterna-se no perpétuo exílio entre os vivos e os mortos, de forma que onde quer que o andarilho ponha seus pés, lá estará o poder. Isto pode ser entendido num sentido metafórico, como o espelho do caminho espiritual pessoal; É, todavia a ação consciente através de gestos que – não pela concepção de metáfora – que o Caminho se torna pessoal. Enquanto o caminho de cada peregrino é certamente diferente e a sabedoria obtida nesse caminho é variável, a relação entre conhecimento, o passo; e a trilha espiritual permanece como uma força constante comprometida pelo iniciado, esteja ele consciente ou não.
A reciprocidade dinâmica entre a Peregrinação e a Permanência é entendida dentro de alguns círculos da bruxaria tradicional como as serpente gêmeas do Caminho e da Marca do Caminho [1]. Uma é fluida e dilatada de modo que reflete o caminho em movimento; a outra é enroscada e vigilante, seu corpo imóvel, seu poder reservado. Das muitas características persistentes da Velha Arte, a lenda de Caim, considerado em algumas tradições como o Filho da Serpente, é a que nos é relevante aqui. A Gnosis Cainita [2], exemplificada através do corpus de conhecimento e práxis próprios do Cultus Sabbati, chamado Caminho Tortuoso, foi também descrito por seus guardiões como a Fé Sob os Calcanhares do Andarilho.
Enquanto a tradição de Caim possui muitos significados internos para cada corrente da Fé, a mais apropriada para nossa consideração é o Exílio de Caim: a aquisição do conhecimento divino pela perambulação no ermo. Ao observarmos a história da Arte, um aspecto da posição do exílio é o peculiar, porém bem definido local da bruxa em relação aos domínios do homem: um lugar ocupado as margem dos deuses e leis mortais. Isso foi interpretado positiva e negativamente em diferentes lugares e épocas, porém a despeito dos equívocos mundanos ou conseqüências trágicas, conferiu-se ao exílio certa medida de poder por virtude de sua separação do vulgar. Sempre permanecerá um mistério sobre o porquê, após ter assassinado Abel, Caim recebera do colérico Deus, uma marca pela qual ficaria não só a parte de toda humanidade, mas que também o protegeria. Novamente, é o caminho do exílio que ilumina da trajetória espiritual do feiticeiro, separado da presença do Deus ofendido, cujos poderes ele insultou, mas também separado do rebanho da humanidade que busca a destruição daqueles poderes encerrados na terra. A Marca neste caso é o poder intercessor entre as duas extremidades do caminho sinuoso.
Consideremos isso dentro do contexto do poder do feiticeiro. Em termos materiais o exílio o remove da estase familiar e o coloca em território desconhecido, onde os poderes encontrados são incertos e freqüentemente muito diferentes de suas máscaras. Em tais lugares, por sua travessia, a virtude do feiticeiro é testada das formas mais severas nos termos divinos ao invés dos seus próprios: este é, porém, um arcano da Fórmula de Oposição. A prova de tal ordália irá determinar se o andarilho continuará na estrada, carregando o fardo e a benção da Marca ou se encontrará seu destino como sacrifício de sangue no altar de um Deus desconhecido. Ainda que o exílio seja imposto, é Caim, pai dos feiticeiros, que toma o caminho tortuoso como seu, reorientando seu Vôo como uma peregrinação sagrada no lugar de um evento de remorso e reflexão angustiada. Pois mesmo no primeiro ato de expulsão há um desígnio oculto.
Contudo, o caminho do andarilho é também o Caminho do Sábio feito deus: pois o caminho sempre se alterna entre o lugar do Primeiro Exílio, o Caminho Tortuoso e o Lugar de Chegada – a eterna procissão da alma de Santuário
Assim são os Santuários do caminho ou Marcas do Caminho, conhecidos na forma de grutas, campos, pedras, igrejas, cemitérios e fontes. Cada um apresenta sua própria sabedoria e partilha na eterna natureza do Lugar Solitário, do complô oculto tão querido da família de Elphame. Considerando como o Santuário da Marca do Caminho que sustenta o iniciado, é a sempre mutável trilha que tenta, põe a prova e faz oposição ao andarilho. Assim, a unidade entre o Caminho e a Marca do Caminho está sempre conjugada num passo.
Permanência é o aperfeiçoamento duradouro da alma no lugar do santuário: seu trabalho é a veneração dos deuses locais, santuários e a proteção da fé na unidade. Peregrinação é o caminho feito manifesto, a deificação do espírito pelo gesto do passo e a oferenda do trabalho em serviço da obra. Sua obra é ir adiante por entre as Marcas, a manutenção da vigília no percurso das estradas espirituais e a reunião das antes desconhecidas correntes espirituais e sabedoria.
A Gnosis Cainita também se manifesta na Velha Arte pela presença do sincretismo, ou equilíbrio entre elementos nativos e não nativos presentes numa religião ou pratica espiritual. A magia popular britânica tem longa atuação como caldeirão absorvente de todas as construções mágicas do mundo, sejam elas grimórios continentais, Maçonaria, Divinação Bíblica, Encantamentos romani e outras diversas correntes. A Arte dos Sábios em particular, com sua histórica mistura entre praticantes urbanos e rurais, não foi exceção e assim, na maioria dos casos a porção rural serviu de rubrica fundamental, pela qual influências de lugares distantes fizeram sua porta de entrada no corpo da prática mágica.
Isto pode ser observado, em termos simples, com o conhecimento das plantas presentes em algumas linhagens de Velha Arte. O Olíbano (franquincenso), um produto do Iêmen e da Arábia Saudita, tem sido longamente estimado pelos magos populares britânicos para a conjuração de espíritos, purificação, indução ao transe, e outros propósitos menos extensamente conhecidos. Entretanto, seus usos feiticeiros são conhecidos de grimórios medievais e do início da era moderna, seu meio prático de introdução na Inglaterra foi provavelmente através da Igreja Cristã. Porém, a sua origem como uma planta estrangeira, proveniente de um deserto a milhares de milhas ao sudoeste, de uma religião estrangeira à antiga Albion, não nega seu status como um estimado suplemento à prática da magia britânica tradicional, pois é a verdadeira natureza da Gnose Cainita que todo poder - belo e feio - é adaptado a servir. Este também tem sido o caso do entrosamento de formas 'nativas' da magia britânica e o Cristianismo, da chamada 'observância de fé dupla'[4]. Em outro exemplo curioso, certas formas de Bruxaria Galesa historicamente derivadas fazem uso de oferendas de queima de tabaco e sálvia, de uma forma mais similar às tradições nativas americanas. Apesar de não endêmico às Ilhas britânicas, o tabaco tem sido presente desde o século XVI, quando foi introduzido à Inglaterra, por Sir John Hawkins, Sir Walter Raleigh, e Sir Francis Drake [5]. Que seus usos hedonísticos deveriam assimilar a exclusão total de suas aplicações mágicas sagradas é discutível, dado o seu modo de disseminação ao longo da Inglaterra, que incluiu americanos nativos cativos, trazidos para introduzir suas virtudes; e a desenvoltura do povo sábio, que não hesitou em adotar poderes exóticos ao lado dos seus já familiares.
A Estrada de Caim, sempre tortuosa, trouxe também numerosas compreensões espirituais na esfera mágica britânica
Este também foi o caso de Aleister Crowley e Gerald Gardner, magistas quintessenciais ingleses do século XX, ambos dos quais eram bem viajados e integraram componentes 'não-nativos' dentro de seus corpos respectivos de práticas mágicas. Semelhantemente, o feiticeiro britânico Austin Osman Spare contava entre seus espíritos familiares, com a entidade conhecida pelo nome mundano de Águia Negra, o espírito desencarnado de um nativo americano Naragansett. O culto da mandrágora, originariamente uma planta que habitava as margens do Mediterrâneo, vagou por muitas milhas e sofreu muitas permutas mágicas, notavelmente gregas, romanas, e alemães - antes de sua adoção na bruxaria britânica [7].
Discutivelmente uma conseqüência parcial das rotas comerciais e Império, tais influências estão longe de ser imposições estrangeiras, mas muito mais a simpatia e sincronicidade das vertentes espirituais que fluíram, por vias tortuosas, dentro do grande refinador de Albion. Certos esboços topológicos da bruxaria Sabbática, por exemplo, também são encontradas na magia popular da Europa continental, Escandinávia, e América do Norte, entre outros lugares [8]. Embora expresso de acordo com o lugar, ambiente cultural, e com a característica inata do espírito, sua ação feiticeira permanece notavelmente uniforme. As semelhanças, por exemplo, entre as práticas nativas norte americanas e algumas magias rurais do povo sábio britânico, são consideráveis [9]. Das tradições passadas para mim pelos meus professores, é de interesse particular a presença de encantamentos obscuros latinos, e um corpo de práticas que os cercam, a ser encontrados nas linhagens fundadoras da Cultus Sabbati. Tais encantamentos têm sido historicamente ligados ao século XVII aos curandeiros da fé anabatistas alemães e suíços, que suplementaram o estudo das escrituras com práticas ocultistas e astrológicas [10]. Por extensão, tais práticas também estão ligadas, em vigor e forma, com os 'Hexenmeisters' da denominada 'Pensilvânia holandesa' na América do Norte, que é descendente dos anabatistas.
A mera presença do sincretismo dentro da Arte Antiga, porém, não legitima a mistura de sinal com símbolo, encantamento com conjuração, e tradição com tradição: o caminho deve ser guardado conforme as Antigas Leis, Juramento e o conselho dos espíritos, que mantém a integridade interna de seus mistérios. Porém, uma defesa educada da Antiga Fé deve surgir, tanto por veneração da localidade quanto do caminho que sempre transformativo do Iniciado; da marca sagrada do caminho ao longo da rota do peregrino, e dos espíritos manifestos do caminho do exílio, vagando, e retornando. Iniciados jurados da Antiga Arte devem reconhecer sua herança nativa na totalidade, se seus componentes se originam em seu ou nos campos além, mas não a exclusão do fato histórico, nem pelo ato duvidoso de se levantar o ídolo bruto de supremacia cultural. Verdade em palavra, honra em ação, e uma chama bem cuidada deve informar a tudo, de outra forma a atração ao nativismo é revelada como fanatismo ignorante, e verdadeiramente a densa e tirana natureza de Abel, o pastor.
Assim é o feiticeiro, onde quer que ele vague se tornará uno com o Caminho de Caim, e a sabedoria do passo é novamente declarada. Primeiro, pela posição de Exilado, como separado e solitário. Segundo, pelo caminho declarado, mas também transgredido, seus pontos de oscilação entre a cura e maldição: aqui o caminho é bifurcado e se torna Tortuoso. Terceiro, pelo padrão tripartido do Exílio, Peregrinação e Estadia temporária, que é a ponte que liga ponto a ponto e novamente ao ponto na cristalização do conhecimento do Caminho. E na estrada do exílio o Verdadeiro Peregrino deve seguir adiante, carregando uma multitude de máscaras das religiões dos homens mortais, para que os poderes gêmeos do Caminho e das Marcas do Caminho tragam a sabedoria em carne.
Tradução: Draku-Qayin
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Notas:
[1] Para uma exposição feiticeira mais profunda destes mistérios, veja Schulke D., Viridarium Umbris: The Pleasure-Garden of Shadow (Xoanon Publishing 2005: 38-65).
[2] A ser distinto dos ensinamentos da antiga seita gnóstica conhecida como os Cainitas, que, de acordo com sua soteriologia [N.T.:A soteriologia é a área da Teologia Sistemática que trata da doutrina da salvação humana.], teve que 'passar através de todas as coisas'. 'A Via Tortuosa' foi usada por Andrew Chumbley, o antigo Magister da Cultus Sabbati, para descrever o ethos feiticeiro presente em muitas formas de bruxaria tradicional, e é exemplificada nos ensinamentos e exegese mística de seu grimório The Dragon Book of Essex (publicado reservadamente 1992-1999; a ser publicado em edição limitada pela Xoanon Publishing).
[3] Chumbley, Andrew D. Azoëtia: A Grimoire of the Sabbatic Craft, (Xoanon 1992, 2002).
[4] Veja: Chumbley, Andrew D. 'The Magic of History'
[5] Gately, Iain: Tobacco: A Cultural History of How an Exotic Plant Seduced Civilization (Simon and Schuster, 2001: 45-47). Ele diz que o tabaco, conhecido pelos seus poderes mágicos de formar pontes entre praticante e espírito, era cedido como presente de boas vindas pelos nativos americanos da Califórnia à Sir Francis Drake, em 1579, que então reivindicou suas tribos, e na verdade toda Califórnia, como Nova Albion (Nova Inglaterra) em nome da Rainha Elizabeth.
[6] Chumbley, 'The Crooked Path', em Chaos lnternational (1992: 13,12-14) o grimório de Chumbley, Azoëtia, embora seja uma completa solidificação da bruxaria britânica tradicional, faz uso da iconografia sumeriana, egípcia, Yezidi, árabe e asteca, entre outros.
[7] Mandragora officinalis, ou pelo menos no que foi escrito sobre o conhecimento médico dela, é dito ter chegado à Inglaterra em torno do século XI, baseado na sua presença no antigo Herbarium inglês de Apulieus, aproximadamente de 1.050. Porém, sua passagem para a magia popular, registrada principalmente nos municípios meridionais, devem ser considerada em associação com a tandem com a Uva-de-Cão [N.T.: Tamus communis], (veja em C.I.S. Thompson, The Mystic Mandrake, University Books, 1968: 107-116).
[8] Compare, por exemplo, o ethos e práticas feiticeiras dos Navajos, Zunis e Pueblos como resumido por Simmons em Witchcraft in the Southwest (University of Nebraska Press 1974); o espírito de caça onírico dos mazzeri córsicos no livro de Carrington, The Dream-Hunters of Corsica (Phoenix 1995), a bilocação do espírito profético de Sami Lapps (para isto, leia Lecouteux, Witches, Werewolves and Fairies, Editions Imago, 1992); e a veneração difundida de santos cristãos no sincretismo com deuses tradicionais e genii loci encontrada nas tradições diaspóricas africanas como o Vodu, Santeria, e Palo Mayombe. Para um exemplo relevante de sincretismo do cristianismo anglicano e tradições do Oeste da África, leiam Bradford Keeney, The Shakers of St. Vincent (Ringing Rocks Foundation, 2002).
[9] Wilby, Emma: Cunning Folk and Familiar Spirits: Shamanistic Visionary Traditions in Early Modern British Witchcraft and Magic (
[10] Como dissidentes perseguidos do Luteranismo, os Anabatistas, alguns dos quais imigraram para América do Norte e mais tarde se tornaram os Amish ou Mennonitas, iriam por necessidade compreender a 'gnose do exílio', entretanto manifesto de acordo com seu estilo de vida e visões religiosas.
Nota biográfica: O escritor é o Magister da Cultus Sabbati, um corpo de iniciados da Bruxaria Tradicional, e autor de Ars Philtron (Xoanon 2001) e Viridarium Umbris: The Pleasure-Garden of Shadow (Xoanon 2005). Ele pode ser contactado através da Xoanon,
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OBS* Este ensaio foi publicado originalmente em língua portuguesa pela antiga revista O Caldeirão, fazendo parte atualmente do acervo da Revista Crux. Não deve ser reproduzido em nenhum meio sem permissão do Editor. Publicado aqui com autorização.
Imagem: Calling the Fetch in the Field by Night - por Andrew D. Chumbley
quinta-feira, 16 de julho de 2009
HÄXAN - Witchcraft Through The Ages (Vídeo)
terça-feira, 7 de julho de 2009
O Diabo Cor de Rosa

Não é exagero usar o termo comercial para a análise, visto que o mercado editorial, o de cursos, o de acessórios e até mesmo o turístico têm encontrado resultados satisfatórios neste filão, impulsionados por grandes velas sopradas por Hollywood.
Mas não é isto o que acontece.
Defende o modelo de que o bruxo tem que ser sábio, ainda que incorra no erro do sincretismo e ecletismo irresponsável. Cultua Lilith e Hécate como se estas fossem “mães-modelo”. De um lado teme o mal e a tentação de fazer o mal, de outro, ri do perigo dizendo driblar a tal ‘lei tríplice’.
Faz invocações as quatro “torres de observação”, aos quatro“guardiães”, enquanto nega que estes são chamados entre outras gentes de ‘”anjos” ou “demônios”. Mas, como estes últimos são tidos como “coisas judaico-cristãs” sem maior análise e aprofundamento, fica em paz em suas pequenas ilusões.
Enfim, criou o novo modelo regulador de moral e dogma, pouco mais adaptado ao caráter flexível das pessoas modernas, uma Jeová de Saias para servir de contraponto ao já existente dentro da arque inimiga Igreja – hoje, uma Nêmesis involuntária.
Estes bruxos moderninhos, só eles, diz-se, podem se chamar ‘bruxos’. Os que não se encaixam nesta nova ordem, devem ser eliminados na “inquisição interna”, onde reputações fazem as vezes de corpos queimados ou pendurados pelo pescoço.
O Cornudo, pobre esquecido, o grande homem-bode de falo ereto e cheiro almiscarado, desce do pedestal de Diabo do Sabbath, vermelho como o sangue dos marginais heréticos, azulando-se de horror aos representantes gays no tal chamado ‘culto de fertilidade’. Ele finalmente chega aos nossos dias ganhando tons rosados – de tanto branqueamento - pela nova geração de ‘jovens bruxas’.
Estas ainda estão muito preocupadas com o que seus pais, irmãos e amigos, enfim, o que a sociedade pensa sobre seu estilo de vida, seja ele pela escolha de fazer parte de um grupo ou por pura rebeldia - pela falsa liberdade de estar em oposição a algo, uma perda de tempo a qualquer peregrino.
Qelimath http://hexencraft.blogspot.com/
Publicado em "O Caldeirão" edição XIV


