segunda-feira, 25 de maio de 2009

Algumas Distinções entre Bruxaria Tradicional e Wicca

Por Draku-Qayin

De alguns anos para cá o fenômeno do surgimento de diversos grupos que se intitulam ‘Bruxaria’ é crescente no Brasil e no mundo. Aqui em nosso país, esse fenômeno se originou inicialmente com a chamada ‘Bruxaria Moderna’ ou Wicca. Mais recentemente temos visto que muitas pessoas tem falado sobre ‘Bruxaria Tradicional’. É cada vez mais comum ver em listas de discussão e fóruns, além de sites, pessoas dizendo “Não, não sou Wiccano, sou Bruxo Tradicional”; mas quando muitas dessas pessoas vão dissertar sobre suas práticas e pensamentos, logo se vê que elas estão usando o mesmo frame de Wicca, com as mesmas práticas, mesmos objetivos, mesmas crenças. Certa vez vi um conhecido autor de livros de Wicca brasileiro comentando que ele não via diferença entre Wicca e Bruxaria Tradicional, já que o que os chamados “Bruxos Tradicionais” pregavam era idêntico à Wicca; de certa forma este autor não está errado em sua observação, já que a grande massa dos que se chamam por este título nada mais fazem do que utilizar os parâmetros de Wicca encontrados em livros, e renomeá-los de Bruxaria Tradicional.

Mas a Bruxaria Tradicional existe sim, e ela é bem distinta do que é apresentado pela maioria, e logo como tal ela é muito diferente da Wicca.

É com o intuito de apontar essas diferenças que este pequeno ensaio foi escrito, onde apresentaremos alguns tópicos para mostrar as diferenças de práticas, costumes, crenças e pensamentos que existem entre a conhecida Wicca e a não tão conhecida Bruxaria Tradicional. Tais distinções são em certo ponto diametralmente opostas umas das outras, o que vem a mostrar a singularidade de cada uma delas.

Devemos deixar claro antes de prosseguir que em momento algum estamos dizendo que uma é melhor que a outra. Em momento algum estaremos invalidando o caminho espiritual de qualquer pessoa, nem que uma é a Verdadeira em detrimento da outra. Cada caminho é válido para seu praticante, desde que praticado com sinceridade. Este pequeno ensaio é apenas uma coletânea de tópicos que visam demonstrar as diferenças citadas, evitando assim errôneas citações comuns como “Bruxaria Tradicional é uma Tradição da Wicca” ou “Bruxaria Tradicional é a Religião pura dos Celtas”, ou mesmo “Bruxaria Tradicional é a Bruxaria mais Natural”; essas são algumas das muitas afirmações que são ditas diariamente pelos meios de comunicação, mas que constituem inverdades sobre a verdadeira natureza da mesma. Então, que fique bem claro que este autor não vem aqui escrever em detrimento da Religião Wicca, muito pelo contrário. Este é um ensaio de esclarecimento, e da mesma forma como Wiccanos sérios e sinceros não gostam de ver barbáries que muitas vezes são praticadas sob o nome da Wicca, nós Bruxos Tradicionais também não gostamos de ver praticas que nada se relacionam com nosso Ofício sendo classificadas como tal.

Este ensaio foi escrito como complemento de um ensaio prévio intitulado “A Distinção das Três Artes” de meu querido Frater Settubal, e está redigido na forma de uma entrevista, como um F.A.Q., onde diversas perguntas foram formuladas a respeito das distinções entre as duas Artes citadas.

A Bruxaria Tradicional é uma Religião?

Não, somos considerados um Ofício e não uma Religião per se. É claro que do ponto de vista do atual uso da palavra, qualquer forma de culto ou veneração está intimamente ligada à religiosidade, mas não chamamos nossa Arte de Religião pelo motivo a seguir. Religião, conforme a etimologia desta palavra provém de Religare, indicando uma “re-ligação” com a/as divindade/s. Para a Wicca o homem precisa se re-conectar, se re-ligar com a Divindade, criar um laço, um elo. Nós Bruxos Tradicionais não vemos a necessidade de uma re-ligação, pois cremos que já nascemos totalmente conectados com nossas Divindades Tutelares. Isso é muito expresso no conceito que temos de Sangue-Bruxo. Como não temos a necessidade do “religare”, e este conceito não tem nenhuma função dentro da Arte Tradicional, costumamos dizer que não somos uma Religião, e sim um Ofício. A Bruxaria Tradicional é então, até certo ponto, uma forma de religiosidade se encaramos o significado usual da palavra, como um “culto prestado a divindade”, mas se desvincula totalmente da palavra quando esta é usada no sentido de “re-ligação”. Um comentário a parte, mas de toda forma interessante, é que os Judeus têm a mesma visão, não se consideram uma Religião, pois crêem que nunca estiveram afastados ou desligados de sua divindade, não precisando assim de um “religare”.

É comum ver praticantes da Wicca afirmarem que toda Bruxaria é sinônimo de Wicca, e que qualquer coisa que não se enquadre em Wicca não é Bruxaria. O que você diz a esse respeito?

Vamos falar sobre a palavra ‘Bruxaria’. Esta é uma palavra que pode ser aplicada para diversos fins. Muitas pessoas querem “monopolizar” a palavra Bruxaria para que ela se aplique somente as suas práticas de adoração, e tudo o que não se encaixa nisso afirmam não ser Bruxaria. Isso é um grande erro. Apenas como exemplo simples e rápido, na Nigéria temos o culto das Iyami, que em nada se assemelha com o culto da deusa e de seu consorte, com as celebrações sazonais e lunares da conhecida Wicca; e mesmo assim este culto é um culto de Bruxaria. Outro exemplo é a Kimbanda nascida no Brasil, culto de exus e pombas-giras, que é um sistema que nasceu da influência da religiosidade africana mesclada com a feitiçaria européia; aqui temos novamente uma forma de Bruxaria. Olhando mundo a fora temos as mais diversas formas de culto que se enquadram na terminologia “Bruxaria”, umas totalmente diferentes das outras, e nem por isso elas deixam de ser Bruxaria. O grande problema que vejo no cenário atual são autores e pessoas quererem monopolizar o termo somente para suas práticas, e isso é muito comum nos meios Wiccanos, como se Wicca fosse a única detentora desta palavra; que fique claro que Wicca não é sinônimo de Bruxaria. Ela pode se chamar de Bruxaria? Pode, claro. Mas ela não é nem de longe a única forma. Um Wiccano pode afirmar de boca cheia que “aquele ritual de exus não é Wicca”, e ele está 100% certo, mas ele nunca pode afirmar “aquele ritual de exus não é bruxaria”, pois ai ele estará “monopolizando” um termo que não é somente dele. É ai que mora o perigo.

Como Bruxo Tradicional, posso afirmar até certo ponto o que é e o que não é Bruxaria Tradicional. Mas em momento algum negarei que o culto de Iyami, o culto de Kimbanda, o Palo Mayombe, entre centenas de outras práticas são Bruxaria, pois são. Não existe monopólio desta palavra, exatamente por não poder haver generalização dela.

A Wicca é dividida em diversas vertentes que são chamadas de ‘Tradições’. Cada uma com suas práticas particulares, mas todas contendo certos pontos em comum, como a adoração da Deusa. Como isso ocorre em Bruxaria Tradicional?

Bem, a Bruxaria Tradicional deve ser primeiramente definida. Entendemos por Bruxaria Tradicional toda forma de Bruxaria diferentes da atual corrente da Bruxaria Moderna. Por Tradicional também entendemos uma corrente que é transmitida de um ponto ao outro, sem quebras ou interrupção, que mantém sua essência inalterada, mas que é fluída em seu movimento para frente [1]. Tradicionalismo, como entendido por Bruxos Tradicionais, está relacionado à transcendência unitária presente nas “religiões”, esta visão de unidade transcendente também é chamada de Filosofia Perene [2].

Em Bruxaria Tradicional há também diversas vertentes, das quais os termos mais comuns são Clã, Família ou Ponto de Poder. Cada Clã é considerado como realmente uma família, e tem suas práticas próprias, liturgias, rituais e modos de interação com o mundo. Na essência, todo Clã de BT carrega a mesma unidade transcendente, conforme já dissemos, mas muitas de suas práticas podem variar diametralmente.

Enquanto na Wicca, diversas pessoas pelo mundo podem seguir a mesma ‘Tradição’, mas nunca se conhecerem, já que seus pequenos grupos (comumente chamados Covens) são autônomos, não há uma centralização, e mesmo que diversos grupos da mesma ‘Tradição’ possam ter relações mutuas entre si, isso não constitui uma regra, o que na Bruxaria Tradicional é totalmente diferente. Todos num Clã, independente do número de pessoas que existam nele, se conhecem e sabem quem são os membros de sua “família”. É impossível, por exemplo, que haja um grupo do Clã de Tubal-Caim na Inglaterra e outro grupo do mesmo Clã nos Estados Unidos, e que membros do primeiro não conheçam os membros do segundo. Exatamente como numa família, os membros podem estar distanciados por limites geográficos, mas toda a família se conhece. Por isso costumamos chamar nossas famílias de Ponto de Poder, pois diversos grupos, Conciliábulos, Conventos e Círculos podem existir, mas todos giram igualmente em torno de um ponto central. Em Bruxaria Tradicional é regra que essa centralização. Por isso também que algumas vezes os grupos de bruxos pertencentes a um mesmo Clã são chamados de ‘Célula’, pois os Clãs atuam em uma estrutura celular, toda célula é sujeita a um ponto central, e tais “Covens” não são independentes como ocorre na Wicca.

É comum na Wicca a liderança de um Coven ser de um Alto Sacerdote e de uma Alta Sacerdotisa. Na Bruxaria Tradicional vemos os termos Magister/Diabo e Dama. Seriam estes títulos atribuídos a mesma função do Alto Sacerdote e Sacerdotisa?

Não, de forma alguma. E isso é muito relacionado ao que disse acima. Dentro do sistema da Wicca, qualquer membro Iniciado quando atinge determinado Grau de Iniciação é considerado Alto sacerdote e Alta Sacerdotisa. Esse título também é usado na Wicca para definir os líderes de um Coven. Na Bruxaria Tradicional o Magister (também conhecido por Diabo) e a Dama são os líderes e mantenedores do Clã como um todo. Na Wicca, como já foi dito, os Covens são autônomos, logo uma Alta Sacerdotisa e um Alto Sacerdote de um Coven Wiccano também são autônomos e não devem satisfações para nenhuma Autoridade Central. Na Bruxaria Tradicional, todos os membros e todos os Conciliábulos estão sujeitos a Autoridade Central expressa na figura do Magister e da Dama. Cada pequena Célula normalmente tem uma pessoa que atua no ofício de liderança, mas como nossos grupos não são autônomos, mesmo esses lideres estão sujeitos a esta autoridade central. Outra distinção que podemos dar é que, enquanto na Wicca dentro de um Círculo quem guia e lidera é a Alta Sacerdotisa, em um Clã da Arte Tradicional esta liderança está nas mãos do Magister e/ou do Líder Masculino da Célula, por diversas razões diferentes.

É visto que a Arte Tradicional fala muito sobre Sabbats. O que são os Sabbats para os Bruxos Tradicionais?

Para a Wicca os Sabbats são rituais celebrados em datas pré-determinadas, oito vezes ao ano, como festejos sazonais. Isso é completamente diferente na Arte Feiticeira Tradicional. Para nós, o Sabbat não é uma data ou um ritual, e sim um local, um “ponto de encontro”, aquilo que costumamos chamar de “a Encruzilhada”. Este local não é um lugar físico, material, mas sim um local etéreo e espiritual que se localiza em um determinado ponto do Plano Astral. Como tal, consideramos o Sabbat como o Ponto do Congresso; por Congresso entendemos uma reunião entre diversos tipos de espíritos que se tornam um no Sabbat. O Bruxo realmente “voa” até o Sabbat, em seu corpo espiritual comumente chamado de Fetch (algo como “Duplo Astral”) e lá encontra com todo o Conclave dos Vivos e dos Mortos Abençoados e Sábios da Arte. É no Sabbat que comungamos com nossos Deuses, nossos Mortos e nos tornamos um com a figura divina central, o Diabo. Diversos são nossos meios para o Ingresso no Sabbat, como o uso dos famigerados Vinum e Unguentum Sabbati, filtros preparados com base em substâncias enteógenas, consumo de certos cogumelos sagrados e técnicas de projeção em rituais, bem como o trabalho intenso da magia onírica [3].

O Sabbat é considerado atemporal, ou seja, está totalmente fora do tempo como o conhecemos, não teve início e não terá fim, ou seja, ele pode ser acessado pelo praticante experiente a qualquer momento, pois ele não só ocorre, ele é. Campo do Bode, Prado de Josafá, Encruzilhada, Montanha de Vênus, Blockula, são algumas das terminologias comuns para Sabbat. Muitos Clãs Tradicionais inclusive se denominam Sabbáticos, como é o caso da Cultus Sabbati e também como o sistema legado por Austin O. Spare, Zos Kia Cultus, ambas formas tradicionais da Arte Feiticeira.

Você citou uso de substâncias enteógenas e consumo de certos cogumelos sagrados. Então a Bruxaria Tradicional se utiliza de substâncias psicoativas?

Sim, sempre se utilizou e sempre irá se utilizar, pois são chaves de poder magicamente potentes e insubstituíveis. É claro que não recomendo o uso de nenhuma substância psicoativa por nenhuma pessoa que não tenha um profundo conhecimento do tema, e sem a supervisão de alguém preparado. Tais “Sacramentos” como chamamos, são usados somente em determinados momentos, para determinados fins, e totalmente de forma sagrada. Somos contra o uso destas substâncias para o mero entretenimento, como as drogas recreativas. Nosso respeito com os Genii de certas plantas e cogumelos é tão grande, como o respeito que um membro do culto do Santo Daime tem com sua beberagem sagrada, e assim como eles nunca permitiríamos o uso dos nossos Sacramentos por pessoas que visam meramente diversão e entretenimento.

Você também cita algumas vezes os termos Deuses e o termo Diabo. Sabemos que a Wicca procura uma forma de religiosidade baseada no Paganismo, de certo modo reconstruindo cultos à deidades de panteões antigos. Como isso ocorre na Fé Sem-Nome? Bruxos Tradicionais são Pagãos?

Não somos Pagãos. Nossa Fé e nosso Culto são baseados naquilo que chamamos Adoração de Dupla Observação, ou seja, dentro de nosso sistema temos tanto elementos Cristãos como elementos de algumas Escolas de Mistério Pagãs; há também elementos Judaicos, que formam muito da estrutura de toda a Magia Ocidental, e sim, por mais que neguem até mesmo a Wicca contém esses elementos, vide a Tradição Alexandrina da Wicca.

A Wicca se baseia num culto Duoteísta, onde todas as deusas de quaisquer civilizações são facetas da Deusa Wiccana e o mesmo com os deuses masculinos. Algumas vertentes Wiccanas inclusive consideram suas duas divindades como arquétipos, o que se relaciona muito com a Psicologia Junguiana. Na Wicca também, os seguidores consideram a sua Deusa como imanente, habitando em tudo, e deste modo sendo a principal divindade da Criação e do Universo.

A Bruxaria Tradicional tem outra visão de divindade. Primeiramente, vemos que os Deuses da Bruxaria são exatamente isso, Deuses patronos do Ofício das Bruxas, assim como os antigos tinham um deus que era patrono dos ferreiros, já outro deus era patrono dos guerreiros, e assim por diante. Cada divindade sendo individual, e regendo sobre um determinado ofício; assim o Diabo é o deus patrono do ofício das bruxas em diversos Clãs da Arte Tradicional, enquanto para outros a deidade patrona seria a Rainha de Elphame. Isso é o que se costuma chamar de Divindade Tutelar, e para citar um exemplo, a divindade tutelar do Clã de Tubla-Caim é Tubal-Caim, outros Clãs e Irmandades têm outras deidades tutelares, e essas deidades não são vistas como “a mesma deidade com outro nome”, mas sim deidades específicas. Há Clãs, como a Arte de Pickingill, que prestam adoração para a Senhora Vênus e Quatro Deuses Chifrudos. Outros Clãs prestam adoração apenas para a figura do Diabo, como o Bode Negro do Sabbat. Outros por sua vez adoram um panteão com um número específico de deuses. A distinção também ocorre na visão de divindade, pois enquanto a Wicca vê suas deidades como as supremas criadoras, conforme expus acima, os Bruxos Tradicionais tendem a ver sua ou suas divindades como deuses regentes da Arte da Bruxaria, e não deuses primordiais e criadores de tudo. Tomemos um rápido exemplo na antiga Grécia, onde a divindade das Bruxas era Hécate pelo que nos conta sua mitologia. Hécate não era uma deusa criadora do mundo ou do universo, ela era a deusa da bruxaria, a deidade tutelar do ofício das bruxas, enquanto Hefesto seria a divindade tutelar do ofício dos ferreiros. Tomemos o culto de Orixá como outro exemplo, cada Orixá é a divindade regente de algo, como Ogun o regente dos ferreiros e da guerra, Yemoja divindade regente do rio (e no Brasil também uma divindade dos mares), e assim segue. Cada Orixá é único, e não múltiplas manifestações de uma mesma deidade. Então, assim como há divindade dos ferreiros, divindade dos cavaleiros, divindade das artes, divindade das plantações, há também certas divindades da Bruxaria.

Muitos ramos da Bruxaria Tradicional aderem a um foco de Mitos Luciferianos, então você poderá encontrar Clãs que tem adoração a Azazel, a Lúcifer, a Shemyaza [4]. Outra visão diferente é acerca do que chama-se “Sagrado Feminino”. Em Bruxaria Tradicional não há enfoque nisso, pois para nós o Sagrado não tem sexo. Trabalhamos com o nosso Sagrado, que independe de sexismos. Este conceito de “Sagrado Feminino” ou “Sagrado Masculino” ou até mesmo, como vem surgindo atualmente, “Sagrado Homossexualismo” é totalmente estranho para nós.

Então, com base nisso, a Bruxaria Tradicional não é um “Culto de Fertilidade”?

Exatamente, a Bruxaria é vista, nas sábias palavras de Robert Cochrane como a última Escola de Mistérios sobrevivente no ocidente. Ela contém alguns elementos de fertilidade, em suas práticas mais mundanas de feitiços, mas este não é o foco da Bruxaria Tradicional. Principalmente do século XVIII para cá, a Bruxaria tornou-se cada vez mais uma Escola de Mistérios que busca a Gnose, ou seja, a Sabedoria Divina que traz a Iluminação, Iluminação esta que liberta seus adeptos das amarras da ignorância. Muito de Cristianismo Gnóstico se assimilou a certas práticas de Bruxaria, e alguns grupos se consideram buscadores de uma Gnose Luciferiana.

E sobre a questão da evocação dos Mortos? Quais as diferenças que se apresentam entre ambas?

Bem, a base da Bruxaria Tradicional é a Necromancia, assim como a base de todos os cultos de feitiçaria que conheço, como certos cultos africanos, e cultos feiticeiros afro-americanos, como os já citados Palo Mayombe e a Kimbanda. Se observarmos também as mitologias dos povos europeus veremos que sempre a bruxa, por meio de suas artes e de suas divindades tutelares, tem como principal prática a Arte de Evocar os Mortos. A Necromancia é a fundação dos Poderes do Sangue-Bruxo. Citando Andrew Chumbley “os Mortos Poderosos habitam dentro de nossa Carne”. Sem os Mortos de nossas Linhagens, não fazemos nada. Distintamente vemos que na Wicca não se trabalha com a Necromancia, e seus Mortos são apenas convidados a participar de alguns dos ritos. Ou seja, são convidados, mas se eles vão ou não, são eles quem decidem. Já na Bruxaria Tradicional trabalhamos diretamente com Evocações para a real manifestação e aparição dos Mortos em nossas cerimônias. Diversos são os métodos, e em sua maioria estão ligados ao uso de um Crânio humano devidamente preparado como um Vaso para tais espíritos. E sim, essa manifestação é realmente esperada [5].

Sangue-Bruxo. Você pode nos falar mais sobre isso?

Este é o Mistério dos Bruxos, e não posso revelar muita coisa sobre o tema. Apenas que para as linhagens da Arte Sem-Nome, este é um conceito que distingue os Bruxos dos não-Bruxos, e está relacionado ao Atavismo que vem através de diversos fatores e encarnam em um verdadeiro feiticeiro. É dito que o Sangue-Bruxo é a descendência Real de Caim ou Seth, filhos do primeiro homem, Adão. Está também relacionado ao Mistério do Casamento entre o Céu e a Terra, quando os Anjos Caídos uniram sua semente com as “filhas dos homens”, gerando assim uma raça híbrida, parte humana, parte angelical, os Bruxos. Os Anjos Caídos aqui estão também relacionados aos mitos ingleses das Fadas, e daí podemos entender mais sobre o que é conhecido como “Sangue das Fadas”.

A Wicca contém códigos de ética baseadas na Lei Tripla e no Dogma que diz “Faça o que desejar se mal nenhum causar”. A Bruxaria Tradicional tem algo similar?

Não. Cada Clã, Irmandade e Ponto de Poder tem suas próprias leis internas que dizem respeito apenas para si próprios. Cremos que somos responsáveis por nossos atos, mas não temos uma “Lei” que afirma que tudo o que é feito nos retornará. Sobre o Dogma da Wicca, creio que a resposta de Robert Cochrane se aplica não só no Clã de Tubal-Caim, mas acaba servindo como o pensamento de muitos outros Bruxos Tradicionais, que é “Não Faça o que desejar, faça o que precisa ser feito”. Com base nisso, fazemos em nossos círculos fechados tanto feitiçaria para fins benéficos, como para fins maléficos se assim for realmente necessário, não temendo uma retaliação dos deuses, demônios e espíritos com os quais trabalhamos.

Bruxaria Tradicional trabalha com sacrifícios de sangue?

Isso depende de cada “Família”, mas costuma acontecer em alguns rituais de alguns Clãs sim. Claro que Bruxos Tradicionais não são carniceiros que se regozijam com o sofrimento dos animais; quando o fazem, fazem para algo necessário e a morte do animal é rápida e praticamente indolor (ao contrário de muitos matadouros que levam os bifinhos fresquinhos para os açougues). Todas as partes dos animais são utilizadas com um propósito, e seu espírito é honrado por ter servido a isso. Mas este é um assunto que diz respeito apenas aos âmbitos fechados dos grupos, e dos Clãs. Ah, e antes que me esqueça, sacrifícios humanos não são de meu conhecimento na Arte Sábia.

É sabido que na Wicca existem duas formas de Iniciação ao Culto. A Iniciação tradicional, onde um Iniciado faz o Rito com o Iniciante e normalmente tem 3 graus, e a auto-iniciação onde a própria pessoa se inicia. Como isso funciona na Bruxaria Tradicional?

Bem, sei que na Wicca esse é um assunto que gera muita polêmica, pois alguns aceitam a chamada auto-iniciação, enquanto outros são diametralmente opostos. Na Bruxaria Tradicional não existe este tipo de conflito, pois as coisas são claras.

Primeiramente, num Clã de Bruxaria Tradicional normalmente ocorre uma Iniciação principal, formal e “horizontal” que chamamos de empowerment (passagem de poder). Nesta Iniciação, que somente ocorre depois de um longo período de estudos, provações e ordálias, o Poder do Clã é transmitido ao Iniciado – Blood to Blood, Like to Like. Outros empowerments posteriores podem ocorrer, mas eles não são graus, e estão relacionados aos Mistérios que aquele Bruxo em particular estiver trabalhando; assim, numa mesma Família pode haver Bruxos com um empowerment em particular, enquanto outros receberam outros empowerments diferentes.

Auto-Iniciação é algo inexistente em Bruxaria Tradicional. Como alguém pode se dar algo que não tem? Há sim uma modalidade conhecida na Arte e no Folclore europeu, mas que é chamada de Iniciação Solitária, que é extremamente diferente de Auto-Iniciação. Por Auto-Iniciação se entende que a própria pessoa irá se iniciar (ênfase no termo “auto”), algo que não condiz com o Tradicionalismo e a transmissão de poderes e linhagens. Já, Iniciação Solitária funciona da seguinte forma: o aspirante àquele empowerment em particular fará uma série de ritos, e somente se os augúrios e sinais esperados destes ritos realmente acontecerem a pessoa será então Iniciada pela divindade; ou seja, não depende apenas do desejo da pessoa em se iniciar, fazer um ritual e pronto, mas sim de uma quantidade de sinais e augúrios. Para ilustrar melhor isso, tomemos como exemplo o tão conhecido Toad-Rite do folclore inglês. De um antigo artigo meu sobre Sapos e Bruxaria extraio o seguinte parágrafo que explica de forma clara o que é uma Iniciação Solitária:

No Leste da Inglaterra, principalmente no condado de Essex, há uma tradição mágica de bruxos solitários conhecidos como Toad-Witches (Bruxos-Sapos). O folclore, mantido até os dias de hoje, reza que há um rito solitário que visa a obtenção de poderes mágicos, mais propriamente o poder de dominar as bestas e animais e destes especialmente o Cavalo, que é conferido por meio de um amuleto feito do osso de um sapo. É dito que este amuleto, o Toad-Bone Charme (Fetiche-de-Osso-de-Sapo), pode servir como uma chave em todos os assuntos concernentes da Arte Sábia. O rito de obtenção deste amuleto é considerado dentro da Bruxaria Tradicional, como uma Iniciação Solitária e Vertical. Ao contrário da tão afamada “auto-iniciação” onde a pessoa faz um ritual e se considera um Iniciado, a Iniciação Solitária depende de diversos sinais e provações para ser concluída, e se tais sinais não forem dados, o ritual não é concluído e não há Iniciação. Dentro dos costumes dos Toad-Witches, aquele que busca a Iniciação deve procurar um tipo específico de sapo, sacrificá-lo com um espinho de blackthorn (Prunus spinosa), e deixar sua carne ser comida pelas formigas para se obter apenas os ossos. Estes ossos são então recolhidos e jogados em uma corrente de água, e apenas um osso deve voltar para as mãos do praticante, em meio a vários fenômenos naturais que tem por objetivo amedrontar e tirar a atenção do mesmo. Se o osso do sapo não voltar o rito não foi bem sucedido, caso o osso retorne para suas mãos, então ele pode prosseguir nas outras etapas do rito, as quais culminarão no encontro com o Diabo e a Iniciação em si. O próprio sacrifício do sapo em si já é a primeira das provações para saber se o rito poderá ou não ser feito pelo praticante. É dito que somente se pode prosseguir neste Mistério se o modo do sacrifício for revelado por sinais e presságios; é dito ainda que, caso nenhum presságio for recebido, sabe-se que o rito não deve ser feito, e prosseguir é ser amaldiçoado.

Complementando este parágrafo acima, mesmo o aspirante tendo conseguido passar por todas as provações, e assim conseguir estar cara a cara com o Iniciador Chifrudo, o Diabo, ainda assim não é garantida da Iniciação. Ele só será Iniciado e receberá os poderes do Diabo após um combate com o mesmo, no qual o Mestre Negro tentará lhe roubar o osso. O Mestre só lhe transmitirá o poder se o aspirante for determinado o bastante para manter seu Toad-Bone Charme consigo até o final da Ordália [6]. Com este parágrafo que cita a forma de obtenção da Iniciação Solitária dos Toad-Witches, creio que a distinção entre Auto-Iniciação e Iniciação Solitária está mais do que explicada.

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Finalizando este ensaio sobre o quão distintas são as duas Artes, creio que não haverá mais dúvidas aos simpatizantes e estudantes. Como disse no início deste texto, minha intenção não é negar uma em detrimento da outra, mas sim apenas mostrar que são duas práticas completamente diferentes, que carregam apenas o nome ‘bruxaria’ em comum.

Possam a Bênção, a Maldição e a Sabedoria estarem Convosco!

Pelo Brilho do Fruto do Conhecimento!

Amém.


Notas/Recomendações de Leitura Adicional:

[1] - Para entender melhor o que é a Bruxaria Tradicional eu recomendaria a leitura do ensaio “O que é Bruxaria Tradicional?” do falecido bruxo Andrew Chumbley.

[2] - E para compreender melhor o que é Tradicionalismo, eu recomendo que os interessados busquem informações nas obras de René Guénon, principalmente em seu livro “O Reino da Quantidade e os Sinais dos Tempos”. Além disto, também recomendo o ensaio de Nicholaj de Mattos Frisvold intitulado “A Arte Fluída”.

[3] - Recomendo o ensaio Monasterium Unguentum Umbrae pelo Magister da Via Vera Cruz, Azazayin.

[4] - Sobre este tema, o livro “Os Pilares de Tubal-Caim” de Nigel Jackson e Mike Howard são de especial indicação, bem como o “Book of Fallen Angels” de Mike Howard. Ambos autores Bruxos Tradicionais conhecidos.

[5] - Para um conhecimento mais profundo deste tema, sugiro a leitura do artigo de Azazayin, Magister da Via Vera Cruz, intitulado “O Sangue dos Mortos”.

[6] - Recomendo a leitura do livro-grimório One, the Grimoire of the Golden Toad, de Andrew Chumbley, para melhor compreensão da Iniciação Solitária dos Bruxos-Sapos.

Nota Bibliográfica: Draku-Qayin é praticante da Arte Sábia Tradicional, fazendo parte da Irmandade conhecida externamente como Via Vera Cruz, na qual atua na função de Escriba e Convocador. É também estudante de Astrologia Medieval e autor do livro O Caminho do Dragão: uma Introdução à Bruxaria Tradicional (prelo). Mora em São Paulo e tem como animal Familiar um sapo chamado Pedro.

OBS* Este artigo pode ser reproduzido em qualquer meio, desde que não haja alteração em seu conteúdo e que seja citado autor e fonte.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Bruxaria Tradicional e Elitismo

Por Nicholaj de Mattos Frisvold


A Bruxaria Tradicional obteve alguma reputação e notoriedade crescente na Europa e nas Américas. E o que é típico para Américas (norte e sul) é assim chamada de propaganda exagerada, e os fenômenos são vistos como estando na moda, e a novidade da novidade. E isto não deveria ser assim - porque tal ponto de vista iria contra sua própria corrente.

A Bruxaria Tradicional é difícil de se compreender e esta dificuldade está conectada ao Juramento que foi feito e que trouxe a marca na testa de Caim. Enquanto a Bruxaria Tradicional é concernente a um profundo relembrar sobre quem se é, isto explica o por que é que alguns saltam dentro do círculo ardente da Arte e alguns andam ano após ano na sua superfície, sem compreender como entrar.

A Bruxaria Tradicional põe ênfase no Iniciador Oculto, e a eleição acontece por sinais e presságios no jogo entre o Iniciador Oculto e o diabo encarnado como a incorporação da linha. Os alvos daquelas linhas da Arte das quais faço parte da família, podem ser igualados ao conceito na filosofia hindu chamada monismo não-qualificado e o estado de Wali dentre os Sufi Halkas. Isto significa aquele estado que fica além de bem e mal, onde estes conceitos não fazem nenhum sentido.

Nós podemos compreender isto mentalmente, mas experimentar isto é algo completamente diferente. Nisto nós lemos o êxtase do silêncio, o ponto que nunca é permanente, mas mesmo assim permanece Um e Único. O Caminho nunca pode ser explicado sem um trabalho construtivo assim como a experiência mística não pode ser captada sem a influência dos espíritos familiares e uma consciência do azoth entre a Estrela e a Terra.

Assim, já que é um tanto difícil de se participar nela, ela se torna vista como se aqueles que pertencem ao Boneherd estão olhando para baixo, acima das pessoas, devido a um sentimento de que são melhores e que não se admite pessoas no círculo. Aqui se pode observar uma atitude que colide com a essência da Arte. Querer se sentir melhor que os outros.

Para sentir diferente, é assumido pelos profanos, pelos invejosos e pelos ciumentos, que se deve medir em graus segundo suas próprias medidas. Outra vez, isto não faz nenhum sentido na perspectiva da Arte.

Um representante da Bruxaria Tradicional NUNCA entra no mundo oculto a fim de espalhar a Bruxaria Tradicional, porque este não faz nenhum sentido em tal perspectiva, onde o Iniciador Oculto conduz àqueles que pertencem à dobra de dentro das asas do Dragão. Mesmo se o Magister que preside tenha um desejo verdadeiro de convidar e iniciar alguém no sábio círculo que foi aceso pelo fogo de antes da idade dos homens, ele ou ela podem falhar se os sinais e presságios não forem dados e percebidos.

O alvo para todo o praticante sério da Arte é contribuir para a iluminação da raça humana. Isto está acontecendo em um nível muito pequeno, que acontece pela indução de indivíduos nos grupos, mas em grande nível ajudando a peregrinos a procurar o conhecimento verdadeiro e para encontrar qual o caminho que é único e Verdadeiro para cada buscador. Não há nenhum nível que separa linhas de iniciação usando um valor como uma medida. É um grau de diferença.

Isto nos conduz a duas acusações mais comuns sobre a Bruxaria Tradicional, sendo originadas das pessoas claramente pertencentes à Raça de Abel. Sendo estes os protagonistas de tempo consumido no trabalho de degradar a Bruxaria Tradicional, eles tomam elementos de atração imediata fora de seu contexto e colocam-nos dentro de uma imagem que crie um mapa da confusão. A outra acusação indica que uma pessoa envolvida com a Bruxaria Tradicional apresenta elitismo. Neste campo nós vemos que as muitas idéias estranhas e forjadas são apresentados para validar a opinião destes organismos de baixo nível, ou para suprimir e a atacar por mentiras promovidas pela inveja e pelo ciúme.

É interessante notar que a opressão contra a Bruxaria Tradicional, a Arte Sábia da sabedoria do povo sofreu o mesmo tipo de perseguição. Supor-se-ia que os tempos haviam mudado, mas não, continua a mesma boa razão, tão válida, para se manter o silêncio da existência da Arte, mesmo agora tanto quanto durante o calor da Inquisição.

E o silêncio novamente conduz a fabricação das mentiras e enganos da linguagem dos deuses. As mais comuns, que são sobre a prática das Missas Negras e Orgias Sabbáticas, mostram que a Arte se protege de tal forma contra influências não desejadas e também se cria uma parede de desonestidade que tem que ser penetrada antes que o Iniciador Oculto tenha algum interesse e marque o peregrino com a benção maldita. A maldita benção que conduz ao conhecimento. Sabedoria que correu como um poderoso rio entre o reino dos Deuses e a Morte.

No meu próprio caso, eu estive às voltas disso na idade de quinze anos em várias ordens e ao ser tutorado por diferentes mestres na Arte revelados e velados conduziram-me a uma história maciça de várias iniciações. Isto pode parecer como uma contradição desde que se espera de um Bruxo ser um simples camponês que conta somente com o conhecimento oral. Este não é o caso, pois toma-se um olhar objetivo em tudo na história da bruxaria. Um princípio simples como o Um, segue como uma linha escarlate através de muitos tipos de iniciações e de algum modo tudo faz sentido quando a Visão é dada formalmente e se pode ver quão incrivelmente variado o Caminho pode ser, quase como um mosaico e não como uma via em sentido reto.

E assim se vai, a história repete-se constantemente, porque aqueles que não recordam o passado estão condenados a repeti-la. E com esta máscara sórdida de "Guardiões da Verdade" estão se mostrando novamente e novamente.

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OBS* Este ensaio foi originalmente publicado na antiga revista O Caldeirão, atualmente Revista Crux, citado aqui com permissão do Autor e Editor.

 
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