terça-feira, 7 de julho de 2009

O Diabo Cor de Rosa

Mais um ótimo ensaio, desta vez de autoria da minha querida sister Qelimath.

Boa Leitura!!!

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O Diabo Cor de Rosa


Em resposta aos sentimentos de aversão em relação à figura folclórica e arquetípica da Bruxa, houve uma subseqüente e colossal campanha de ‘branqueamento’ anexada ao ressurgimento de sua sobrevivência. Este ressurgimento ocorreu, em sua forma mais pública e popular, em uma forma de culto menos ‘nociva’ à moral cristã que permeia os costumes e usos da nossa sociedade.

Diante disto, é conveniente fazermos um balanço, uma análise do custo desta grande abertura de mercado diante das formas mais tradicionais do Ofício, mais habituadas a se manterem pequenas e secretas e menos preocupadas com a opinião pública e moral vigente.

Não é exagero usar o termo comercial para a análise, visto que o mercado editorial, o de cursos, o de acessórios e até mesmo o turístico têm encontrado resultados satisfatórios neste filão, impulsionados por grandes velas sopradas por Hollywood.

Mas voltemos à intenção, que é verificar o impacto daquela imagem anterior da bruxa, e compreender a identidade paradoxal do bruxo moderno, em especial no Brasil.

Tomemos o contexto do imaginário da bruxa inserido dentro do folclore, que em seus contos de fadas, mitos, celebrações e superstições preservam um vasto campo de pesquisa cultural, desde o conhecimento botânico às crenças e visões de nossos antepassados em relação ao mundo. Isto deveria ser o suficiente para leva-se mais seriamente os rumos dos estudos folclóricos no Brasil, e secundariamente, em sua extensão internacional, graças às trocas culturais - sejam elas através de linhas de consangüinidade ou simplesmente através do apelo espiritual a determinados elementos culturais.

Mas não é isto o que acontece.

Na contramão do que ocorre na Europa, que tenta reunir o máximo de dados culturais para recompor e recontar sua história, o brasileiro, descendente natural bem mais jovem, não demonstra esta preocupação. Esta gente brasileira, cuja população jovem reinava há uns dez anos atrás, deva começar a se preocupar em preservar sua cultura multifacetada antes que ela se perca na poeira do tempo.

O bruxo brasileiro hoje conecta-se com o mundo através da internet, e não raro pesquisa os materiais relativos aos cultos bruxos em websites. É ali que ele demonstra o sentimento que marcou o Brasil colonial, de exilado que anseia a volta à ‘civilização’. Na contramão, a arte das benzedeiras e curandeiros perdidos nos rincões deste país enorme, que trazem não só as características principais das artes bruxas, mas também, uma história rica de encantamentos e que podem ser traçados de volta para diversos países europeus, é prontamente desprezada na velocidade de um clique.

Este bruxo é fascinado pelos antigos cultos de ‘fertilidade e caça’, embora sempre se refira somente ao primeiro esquecendo-se que este segundo ponto justifica a verdadeira presença do Chifrudo. Tendo em mente que o culto também se baseia na ‘caça’, é no mínimo interessante verificar o verdadeiro horror quando diante do fato que ainda existam bruxos que praticam os velhos sacrifícios animais em honra aos deuses, prévio ao consumo no ‘banquete’. Une-se em coro as opiniões de todo o resto da sociedade ao louvor de um estilo de vida cada vez mais artificial e superficial. Aprende então a louvar a Morte em sacos plásticos, em peças de carne desinfetadas e bem cortadas, sem pelos ou penas, e a louvar a Vida desde que esta lhe dê suporte às suas indulgências e acesso ao último modelo de celular (pois sem ele a vida não valeria a pena!).

Compensa sua culpa da compra daquele cristal obtido à custa da floresta e montanha derrubada pelas mineradoras com campanhas ambientais, mais precisamente de doação de animais – domésticos lógico.

Defende o modelo de que o bruxo tem que ser sábio, ainda que incorra no erro do sincretismo e ecletismo irresponsável. Cultua Lilith e Hécate como se estas fossem “mães-modelo”. De um lado teme o mal e a tentação de fazer o mal, de outro, ri do perigo dizendo driblar a tal ‘lei tríplice’.

Faz invocações as quatro “torres de observação”, aos quatro
“guardiães”, enquanto nega que estes são chamados entre outras gentes de ‘”anjos” ou “demônios”. Mas, como estes últimos são tidos como “coisas judaico-cristãs” sem maior análise e aprofundamento, fica em paz em suas pequenas ilusões.

Enfim, criou o novo modelo regulador de moral e dogma, pouco mais adaptado ao caráter flexível das pessoas modernas, uma Jeová de Saias para servir de contraponto ao já existente dentro da arque inimiga Igreja – hoje, uma Nêmesis involuntária.

Estes bruxos moderninhos, só eles, diz-se, podem se chamar ‘bruxos’. Os que não se encaixam nesta nova ordem, devem ser eliminados na “inquisição interna”, onde reputações fazem as vezes de corpos queimados ou pendurados pelo pescoço.

O Cornudo, pobre esquecido, o grande homem-bode de falo ereto e cheiro almiscarado, desce do pedestal de Diabo do Sabbath, vermelho como o sangue dos marginais heréticos, azulando-se de horror aos representantes gays no tal chamado ‘culto de fertilidade’. Ele finalmente chega aos nossos dias ganhando tons rosados – de tanto branqueamento - pela nova geração de ‘jovens bruxas’.

Estas ainda estão muito preocupadas com o que seus pais, irmãos e amigos, enfim, o que a sociedade pensa sobre seu estilo de vida, seja ele pela escolha de fazer parte de um grupo ou por pura rebeldia - pela falsa liberdade de estar em oposição a algo, uma perda de tempo a qualquer peregrino.

Qelimath
http://hexencraft.blogspot.com/

Publicado em "
O Caldeirão" edição XIV

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