
Por Nicholaj de Mattos Frisvold
A Bruxaria Tradicional começa e termina, se enrola e desenrola no ninho dos dragões. Uma nova percepção começa ciclicamente assim que cada ponto é recuperado, compreendido e integrado. Ser um Bruxo não é assim tão simples, e não assim tão abrangente quanto se pode ter a impressão, quando se confunde Gardner e Sanders como bruxos no sentido tradicional da palavra.
Nos últimos anos uma confusão à respeito da Bruxaria tornou-se mais e mais proeminente dentre os buscadores, sobre a diversidade dos trajetos que conduzem a qualquer lugar e em nenhuma parte simultaneamente. Há uma escala de modalidades diferentes do que é chamada intercambiavelmente de "A Arte Antiga”, "A Arte do Sábio", "O Sábio Conhecimento do Povo", “O Conhecimento Folclórico", "A Nobre Arte" e demais termos na mesma veia em relação respeito à Wicca, Bruxaria Hereditária e Bruxaria Tradicional.
Alguns esclarecimentos devem ser feitos para distinguir estes caminhos entre eles somente porque são diferentes. Já é complicado explicar as diferenças em sua natureza, e, adicionando-se a grande confusão dos conceitos, sem dúvida tudo irá se conduzir a uma confusão maior do que uma compreensão maior, desde que nada está claro para aqueles que operam à base de suposições e não através da compreensão e do conhecimento.
A primeira distinção que deve ser feita é entre a Wicca e a Bruxaria Tradicional: Gerald Gardner - que fundou o movimento Wicca - declarou ter sido iniciado num Coven no interior da Inglaterra por um clã de Bruxas Tradicionais, entretanto, não há nenhuma evidência que tal ato tenha ocorrido. E mesmo o “corpus” de seu sistema, tanto quanto o seu “curriculum”, ou até mesmo suas “iniciações” não carregam nenhuma semente que demonstre ser uma linha autônoma de Bruxaria Tradicional, assim como é passada através de sua linhagem.
Isto tem mais um gosto de um trabalho intelectual atribuído ao que Gardner chamou de "A Fé Antiga", baseado em sua maior parte na pesquisa de Charles Godfrey Leland a respeito da Bruxaria Italiana, da Stregoneria e dos outros estudos folclóricos dos quais ele teve acesso.
A Wicca é baseada em polaridades, e os Wiccanos vêem o jogo da natureza na imagem do Deus e da Deusa, e a manifestação destas formas da natureza divina. Uma reverência à natureza por si própria, a nossa mãe terra é também central. Além disto, têm-se os Sabbaths e Esbaths, o que é completamente típico para o que conhecemos como Wiccan, contudo não habitual na "Roda do Ano" dentre os Bruxos Tradicionais necessariamente. "A Bíblia das Bruxas" (de Janet e Stewart Farrar) é, em minha opinião, a exposição a mais desobstruída e a mais autônoma sobre o que é de fato Wicca, o que ela contém, e qual é o alvo. Os Farrars são wiccans orgulhosos e mostram que não há nenhuma necessidade para reivindicar algo que eles não são, como foi a grande tendência geral nos últimos anos.
Acredito que esta tendência é baseada na confusão de conceitos, porque as pessoas gostam de se passar por mestres sem ter o conhecimento suficiente e o poder pessoal para sê-lo. Houve também uma tendência de se supor que há algum tipo de inimizade entre Wiccans e Bruxos Tradicionais. Certamente isto acontece em alguns casos, mas isto não é regra. Para tomar alguns exemplos: o grande sábio e feiticeiro A. O. Spare desrespeitou Gardner, assim, o melhor que ele (Gardner) fez, foi evitá-lo. Spare foi um Bruxo de verdade, aquele que viu o olho do dragão e foi guiado pelos Antigos Poderes por eles mesmos. Um outro exemplo, mais recente, é o de Robert Cochrane, o Magister do Clã de Tubal Caim, que considerava a Wicca sendo mais ou menos a “pestilência da sujeira”. Porém, hoje em dia, a Magistra do Clã também é Wiccan.
Vamos retornar à confusão, onde encontramos a palavra “Bruxa” na raiz da bagunça. "Witch" é uma referência ao conhecimento, o saber, e "Wytja" é carregar o testemunho do conhecimento. Também palavras como "Curren", que é um outro antigo nome usado para classificar a Bruxaria Tradicional, e refere-se ao entendimento e à sabedoria. A Bruxaria Tradicional pode ser encontrada provavelmente em toda parte no mundo, porém em maior parte na Europa a Bruxaria floresceu através da história, todas as vezes pelas palavras das bocas das Bruxas solitárias a seus aprendizes, ou a outros Povos Sábios e Pessoas Sábias. Para não deixar isto muito longo, podemos dizer que a Bruxaria Tradicional é uma linha iniciática de conhecimento e “empowerment” (passagem de poder) que tem sido passada através dos tempos, de iniciado para iniciado.
A diversidade e as diferenças dentre as diferentes vertentes do “Witchlore” (conhecimento de bruxo) são grandes e cada linha ou clã é único no que diz respeito ao conhecimento e às modalidades de “empowerment”. Toda a Bruxaria Tradicional começa com o encontro com os Antigos Poderes e desta reunião a tocha do “Witchfire” é dada pelos Antigos Poderes - por eles próprios - para o bruxo, isto irá resultar em uma orientação única e aqueles que são do Sangue-Bruxo verdadeiro são marcados e reconhecidos pelo primeiro Pai Primordial do Sangue-Bruxo e pelo encanto das almas das bruxas no abraço da “Witchmother”.
É um retorno profundo às recordações sobre o que repousa no sangue do bruxo e sobre andar passo a passo com os Antigos Poderes. A direção que eles lhe dão é como dita pelo Crooked Path (Via Tortuosa): “O Caminho Uno Direto é sempre único” (One Path Direct is always unique). É esta a razão das diferenças entre as várias linhas da Bruxaria Tradicional, e nestas diferenças elas contudo continuam iguais.
Como dito em alguns livros, a Bruxaria Tradicional é vista como algo difícil de se captar e se compreender, e é sim - porque ao se escrever de dentro do “Crooked Path” (Via Tortuosa) não se fala para muitos, mas para poucos. E após ser testado pela forja e a flama, a lâmina e o sopro, uma destruição da gramática e da língua é concebida, e somos deixados pobres de palavras, sem ter como descrever a experiência de ver o seu próprio destino sangrando na sua frente, o espelho rachado, aberto nas paisagens, e no cair em si, que traz o conhecimento esquecido para a batida do coração no AGORA.
A Bruxaria Tradicional como conhecemos no Crooked Path, é uma estrada, frequentemente solitária, que sempre dá ao peregrino todas as experimentações e as ordálias, e o constante auto-sacrifício é sempre uma necessidade, junto com uma humilde dedicação, com os olhos que tenham sido tocados pela visão do ninho do dragão, e acariciado pela cauda da víbora.
Na Wicca, dança-se ao redor das polaridades da natureza e atraem-na para baixo, na Bruxaria Tradicional, o alvo aponta para o UM e único – e esta é a grande diferença e o que faz a Wicca e a Bruxaria Tradicional um mundo separado e para sempre diferente.
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* Este ensaio foi publicado originalmente na revista O Caldeirão, e hoje faz parte do acervo da Revista Crux. Citado aqui com permissão.
* Imagem: Talismã de Saturno - arte de Nigel Jackson



1 comentários:
Eu me lembro de quando tinha esse texto na área aberta do site, eu tenho ele imprimido até hoje, e na época eu lia e relia este e outros do Nichilaj e aquele outro enorme do Chumbley, muito bom relembrar, e também perceber que um bom texto permanece bom sempre e nunca fica ultrapassado. ^^
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